Um selo para acompanhar (a.k.a. GASTAR)

Por Vicente M. em 25/01/2012

Eventualmente nos deparamos com selos que superam o conceito de apenas oportunizar um caminho para artistas distribuírem seus trabalhos e respondem por centralizar uma gama diferenciada de discos relevantes e inovadores. Tal vocação pode mostrar-se tão transcendental que alguns transformaram-se em verdadeiras legendas, abstraindo o foco no artista, convergindo uma base de fãs capaz de investir cegamente em seus produtos, pura e simplesmente baseados na confiança em seus curadores.

Selos como a Creation, Sub Pop e Touch & Go são exemplos da década de 90 enquanto mais recentemente Merge, Southern Lord, Hydrahead e Touch seriam, entre tantos outros, cartões de visita que sugerem algum padrão de qualidade diferenciado no que está se oferecendo. Com a segmentação extrema dos selos e o volume incrível de artistas e registros sonoros da última década, os independentes dividiram sua incumbência de produzir e distribuir registros com a tarefa de agir como curadoria de propostas artísticas, o que notabilizou em pequena escala gente como Taiga, eMego e o já defunto aRCHIVE.

De 2011 para cá, um selo vem se destacando na habilidade de identificar discos e artistas diferenciados, com um incrível índice de acertos. Criado e mantido por R.Loren (o cara que responde pelo projeto de drone/noise Pyramids), o Handmade Birds colocou uma gama incrível de sons inovadores e interessantes, fruto do bom-senso apurado de seu condutor. R.Loren consegue identificar e convergir para seu projeto uma gama heterogênea de artistas, transitando entre gêneros teoricamente desvinculados, mas que fazem todo o sentido quando agrupados sob os domínios da . Noise, shoegaze, black metal, folk, drone convivem harmonicamente no catálogo e, ao contrário de tantos selos que colocam material na rua por necessidade de faturamento ou obrigações de atender contratos com bandas, o que prevalece aqui é unica e exclusivamente a necessidade de liberar um grande disco para o mundo, sublimando a importância dos artistas e gêneros, focando num conteúdo capaz de derrubar o ouvinte. A vocação de R.Loren mostrou-se acertada até o momento: muitos de seus lançamentos já esgotaram e alguns deles zeraram antes mesmo da data oficial, via pre-orders. Outro dado significativo é que o selo vende quase que exclusivamente via web, sem contar com uma grande distribuição, lojas de discos ou banquinha de artistas. No momento, é certo e definitivo: atenção total no mailing do cara e dedos a postos para clicar no buy now. Do contrário, são grandes as chances do ouvinte ficar sem sua edição limitada.

É difícil pinçar destaques num catálogo tão rico, mas os seguintes definitivamente diferenciaram-se (ou se diferenciarão) em minha coleção de discos:

  • SUTEKH HEXEN: Larvae LP A versão colorida do LP esgotou em preorder em menos de 24 horas. Ainda existem exemplares em vinil preto até o momento desse post. Esse disco promete ser um dos belos lançamentos de 2012: um expoente do noise metálico lançado por um dos melhores selos da atualidade. Comprei sem nem procurar samples.

  • S/V\R: Célébration Noire CS Projeto de 1/2 do Menace Ruine. Um mix de metal, synth e noise. Em alguns momentos lembra aqueles technos oitentistas, porém totalmente deturpados.

  • PRETERITE: Pillar Of Winds CD A outra metade do Menace Ruine focada no lado pagão da dupla, dando um tempo para a parafernália digital, derramando os cânticos e ritos medievais sobre pianos e sons mais orgânicos.

  • DREAMLESS: All This Sorrow, All These Knives CD Já abordado no meu best-of de 2011, um encontro do Helmet com o Godflesh. Muitas guitarras empilhadas e conceitos de shoegazing aliados ao metal.

  • DEMIAN JOHNSTON: If They Even Find Me CS Talentoso músico e artista gráfico, Johnston já tem carreira contribuindo com capas e posteres de gente do calibre de KTL, Sunn O))) e Wolves In The Throne Room. Seu trabalho musical dispara-se para diversas frentes mas aqui seu foco é no ambient, ornamentado com passagens do mais puro noise digital.

  • CROOKED NECKS: Alright Is Exactly What It Isn’t e Something Must Break LPs Banda difícil de descrever, mas acho que algo como um vocalista de black metal torturando-se sobre bases do Joy Division dão uma pista. Realmente sui-generis.

  • SUN DEVOURED EARTH: Day After Day, Year After Year, When Will It End 4xCD Outro citado mais de uma vez em meus posts anteriores. Lembra Jesu, mas mais sincero, amargurado e soterrado sob toneladas de neve.

  • GATES: They Hide In The Shadows CD-R Doom-Drone que lembra muito Sunn O))), às vezes no limiar entre a cópia e o tributo. Mas é muito bem feito, intenções genuínas e a coisa funciona. Clima pesadão e obscuro.

  • CIRCLE OF OUROBORUS: Eleven Fingers LP Um grande disco. A banda finlandesa não tem nada de nova mas esse é o grande destaque da relativamente extensa discografia dela. Seu fio condutor é aquela desolação tão recorrente em discos de black metal, mas a instrumentação calcada em bateria e teclados subverte tudo, anulando conexões diretas com gêneros. É um disco incrivelmente obscuro sem necessariamente ser pesado, uma ode ao desencanto. Saiu na Pitchfork com cheiro de incenso, aí o que restava das 500 cópias prensadas sumiu.

  • TENHORNEDBEAST: Ten Horned Moses Descended The Mountain 3xCD-R Se não tivesse esgotado ainda na pre-order, uma das 150 cópias dessa maravilha do drone estaria aqui em casa.

  • BLUT AUS NORT: Mort LP O selo teve a manha de relançar um dos capítulos de black metal dos franceses e o público teve a manha de esgotá-lo rapidamente.

  • SERVILE SECT: “Trvth” LP Notórios pelas experimentações com sci-fi, noise e psicodelia, o Servile Sect já havia conquistado espaço no selo de Thurston Moore, reforçando sua qualidade com esse aval de R.Loren. Sonoridades inquietas, livres de conceitos e barreiras.

http://www.handmadebirds.com/
http://handmadebirds.tumblr.com/

Créditos da imagem: handmadebirds.com



2 comentários:

  • Fabricio em 25/01/2012

    O curioso é que o disco da banda dele, o Pyramids, saiu pela Hydra Head. Aliás, ouvi e não gostei muito não, mas deu vontade de comprar só por causa da linda capa

  • Vicente em 25/01/2012

    É, curioso o fato dele conseguir separar as vocações de músico das tarefas de curadoria. Dá mais legitimidade à ideia de que o selo existe para colocar na rua os trabalhos nos quais ele acredita do que para sustentar seu projeto musical.

    Acho o Pyramids interessante, acho que pode até crescer no futuro.

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