Miroir Noir

Por Vicente M. em 27/08/2010

Arcade Fire: Miroir Noir (2009, Merge Records): Tenho me celebrizado na Dying Days por comentar sobre trabalhos não tão recentes, mas que por aqui custaram a chegar e receber a devida atenção. Incluí, quando encomendei minha cópia de The Suburbs, o DVD Miroir Noir, que documenta a turnê que a banda fez para promover seu segundo disco, Neon Bible.

O Arcade Fire se apresentou ao mundo como uma banda diferenciada, não só pela sua brilhante qualidade musical, mas pela maneira como comunica-se com o mundo. Eles transmitem uma genuinidade convincente, sua postura angustiada frente às mazelas com as quais convivemos e a aparente ignorância a respeito de como o público reage à essas particularidades reforçam sua imagem grandiosa. É uma banda que percorre caminhos inusitados, particulares, para trazer resultados diferenciados. Você os escuta e percebe que há algo no seu som que não sai assim de qualquer artista, do dia para a noite.

Neon Bible, o álbum que embasa Miroir Noir, assumiu proporções messiânicas. Não só correspondeu às altas expectativas oriundas de Funeral como respondeu a elas com uma densidade impressionante. Negro, angustiado, amargo, tão decadente quanto o mundo que tenta descrever e assimilar. O filme apresenta trechos das criações e gravações do citado disco, e tais momentos são verdadeiros deleites para o fã. Nota-se o quão aberta à experimentação e à musicalidade a banda é. Para o Arcade Fire, qualquer espaço, objeto ou ambiência pode produzir uma música. Algumas faixas são exploradas de diferentes maneiras, mum momento apenas no violão, noutro na velha igreja pertencente à banda. Nota-se que para o Arcade Fire uma música pode assumir múltiplas encarnações quando exaustivamente explorada.

A fluência do filme é anti-convencional. Quando determinada música atinge seu auge, ela é subitamente invadida por trechos e filmagens artísticas, ou às vezes pela própria versão do álbum. Algumas começam no palco e terminam num quarto de hotel, já descaracterizadas pelos instrumentos que a ocasião proporcionou. Miroir Noir de forma alguma referencia os DVDs musicais convencionais, onde câmeras revezam-se a cada meio segundo, registrando um show qualquer sem compromisso com um conteúdo mais rico. Aqui as cenas de palco são registradas do meio do público, de trás do palco, na calçada, no meio da banda. O diretor Vincent Morisset preocupou-se em captar o êxtase que o conjunto provoca em seus shows (quem os viu no Tim Festival, sabe do que se trata), montando o trabalho com ângulos inusitados, desfocados e com imagens texturizadas. Mas o melhor do DVD ainda são as versões “de bolso” que a banda faz apenas pelo prazer de experimentar. Como a performance de Neon Bible com a percussão de revista sendo rasgada e a bela encarnação de Windowsill num elevador, que acaba atropelada por sua grandiosa versão de estúdio, num grande momento do filme.

Não seria de se esperar algo diferente do Arcade Fire, que afasta-se do interesse comercial ao disponibilizar um produto acessório. Ao contrário, Miroir Noir ajuda a contextualizar Neon Bible com imagens de religião tratada como um produto a ser comprado. Um complemento de primeira linha, obrigatório para quem se deixou levar pela qualidade do segundo disco dos canadenses.

Créditos da imagem: arcadefire.com



Nenhum comentário.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.

Twitter & blog