Uma história e um download

Por Fabricio C. Boppré em 11/04/2010

— ou Pode parecer, mas isso não é uma elegia aos “bons tempos”

O bairro onde eu moro costumava ser, na minha infância, uma pacata e pequena área residencial, um desses locais onde as portas ficavam abertas e as pessoas se encontravam em frente às suas casas de noite para conversar. Hoje é um bairro barulhento, sujo e inseguro, um lugar que cresceu muito rápida e desorganizadamente, do qual eu só penso em me mudar logo. É também um local onde o processo geral de idiotização que acompanhamos por aí parece um pouco mais acelerado, a julgar por muitos de seus moradores atuais e seus hábitos. Mas levarei daqui algumas ótimas histórias, da idílica infância passada jogando bola na rua, indo ao cinema e voltando altas horas da noite sem problema algum, indo à casa de amigos de bicicleta cruzando ruas que hoje são avenidas com muito mais automóveis do que podem suportar. E em companhia de discos de vinil, de CDs e fitinhas K7, naturalmente.

Era 1993 ou 1994, não lembro, e no meio da caminhada entre minha casa e o colégio onde fiz o segundo grau havia uma padaria, que já não existe mais. Ainda mais breve foi um sub-negócio que essa padaria abrigou: uma locadora de CDs. Eu costumava ir lá com um amigo do colégio de gosto semelhante (e o maior fã que o Days of the New deve ter tido) e gravamos muitas fitas a partir dos CDs alugados lá.

O acervo era pequeno, mas muito curioso. Basicamente rock ‘n’ roll e suas bandas tradicionais: dois discos do Led Zeppelin aqui, três do Nirvana ali, um do Kiss acolá… E, de repente, uns vinte ou trinta do Pearl Jam, entre discos oficiais e bootlegs — muitos bootlegs. Era, claramente, a coleção pessoal de alguém que gostava muito do Pearl Jam e aproveitou o negócio de pães da família para fazer um troquinho com seus discos.

Bom, um dos meus bootlegs preferidos do Pearl Jam — banda então onipresente no meu dia-a-dia, banda de formação mesmo — é um que alugamos lá, chamado Covering ‘Em (Selves), este aqui. É muito legal; como o nome deixa claro, são basicamente covers, em versões ao vivo, além de algumas de lavra própria, em sua maioria b-sides. As minhas versões pearljanianas preferidas de Rocking in the Free World do Neil Young e Masters of War do Bob Dylan estão lá, em gravações abafadas mas inspiradíssimas, captadas naqueles viscerais anos iniciais da banda. Traz ainda uma versão da música do Neil Young tocada com a participação do próprio, furiosa, barulhenta, linda. Alguém pode se incomodar com a qualidade apenas razoável das gravações, mas eu particularmente me afeiçoei tanto às músicas e ao disco, já naquela época em que o alugamos, que hoje acho que isso é parte do seu valor, um resquício das imperfeições e peculiariedades daquela época. (Para um bootleg de qualidade sonora cristalina, eu sempre recomendo aquele sensacional de 1994, a banda destruindo em Atlanta.)

Encurtando um pouco a história e introduzindo o tal download do título deste post: corte para os dias atuais e cá estou ouvindo a fitinha cassete gravada a partir deste CD, fitinha esta que guardei junto com algumas outras poucas mais relevantes quando, alguns meses atrás, resolvi jogar fora a grande maioria delas, que apenas ocupavam espaço já fazia um bom tempo. É uma fitinha de 60 minutos, o que significa que tive que dar uma resumida do tracklist; provavelmente escolhi as preferidas naquela época, uma seleção bem acertada — olhando o tracklist do bootleg completo, só me arrependo de não ter incluído Drop the Leaves, que imagino ser alguma versão inicial de Leash, faixa menor do Vs. que gosto bastante. Fui então procurar por um download do bootleg, para tê-lo guardado à prova de perecimento físico, e fui me exasperando à medida que não achava. E não achei. Achei só um torrent de um cara que juntou a coleção digital dele toda do Pearl Jam num pacotaço de mais de 6 gigabytes, e lá no meio está o Covering ‘Em (Selves). Mas após um dia todo com o Transmission ligado tentando baixar o bagulho, ele sequer começou, então desisti e botei a mão na massa.

Munido de cabos, aparelho de som e notebook, transformei a fitinha em MP3 e taí para download o Covering ‘Em (Selves) (60’ K7 Version + Bonus Disc). É, obviamente, essa versão incompleta que eu tinha na fita, por isso acrescentei o “60’ K7 Version” ao título. Para amenizar a falta dessas faixas que ficaram de fora da minha seleção de 16 ou 17 anos atrás, incluí como bônus um outro disco chamado Covering Them, bootleg de nome similar que acabei baixando erroneamente achando que seria este o que eu procurava. Note na imagem do label da fitinha acima que eu, quando fiz a gravação do Covering ‘Em (Selves), escrevi errado o título do disco, e por isso o engano neste download, que só fui escalarecer depois, pesquisando na internet e comparando os tracklists. Mas como este download inadvertido tem algumas coisas legais, vai junto. Espero que alguém goste! E se alguém souber ou tiver completinho o Covering ‘Em (Selves), favor entrar em contato.

Pra fechar a história: no embalo da audição deste Pearl Jam safra antigona, resolvi dar mais uma chance ao Backspacer. Deve ser só a quinta ou sexta vez que eu o escuto, e durante algumas das poucas faixas que eu gosto, como Unthought Known, The Fixer e Amongst The Waves, cheguei a pensar que o disco poderia, eventual e gradualmente, se transformar num Yield, disco que eu não posso dizer que seja ótimo, mas que ouço com alguma regularidade, pois quase todas suas músicas são agradáveis e ele é bem nivelado nesse patamar razoável. Não sei explicar precisamente, mas é um disco que gosto pela unidade e pelas não-inesquecíveis-mas-boas canções. Digamos que o melhor do Backspacer junto com o melhor do disco anterior, condensados em um único LP, poderia render algo desse tipo. E o Pearl Jam, longe de ser hoje uma banda que esteja no centro (ou mesmo na periferia mais imediata) das minhas atenções, continua sendo uma espécie de porto-seguro, ao qual volto com frequência quando quero escutar algo familiar e certeiro, mas muito mais devido aos discos antigos, aqueles da época da padaria-locadora e do bairro sossegado e humano, do que estes lançamentos irregulares dos últimos 10 anos.

Categoria(s) associada(s): Memória, Downloads

Créditos da imagem: Label da fita cassete citada no post



3 comentários:

  • Vicente em 12/04/2010

    Ótimos tempos os dos bootlegs em CD. A música estava longe de ser vulgarizada como é hoje e eles chegavam em nossas mãos com um Q de magia, onde sequer desconfiávamos que o conteúdo daquilo vinha ou da gravação de um fã abnegado, ou mesmo de transmissões que as rádios gringas faziam eventualmente. Em seguida a internet os ofereceu em maior e melhor quantidade, na base do DIY. Acho que os últimos boots que comprei foram em 98/99, registros da tour do Adore. Dali adiante foram só downloads em FLAC (que hoje nem graça têm mais).

  • Sid Costa em 12/04/2010

    O único bootleg que eu adquiri foi um do Led Zeppelin, isso foi em 92, comprei na mão de um amigo que foi ao Rio e trouxe um material pra revender. Morando no interior da Bahia, até mesmos os oficiais eram relativamente difíceis de se encontrar. Lembro de ter visto o vinil do Vitalogy em uma loja em Porto Seguro (que fica cerca de 60 km daqui), mas quando eu voltei lá não tinha mais. Concordo contigo quando vc fala que o Yield é um disco balanceado e homogêneo mas discordo quanto a canções inesquecíveis, para mim músicas como In Hiding, Faithfull, All Those Yesterdays, Pilate e até (pasme) Push-me Pull-me são classe! Amongst the Waves não faz feio de jeito nenhum, aliás, parece que foi feita para o supracitado Yield.

  • Fabricio Boppré em 13/04/2010

    Sid, acho que a única música do Yield que eu colocaria num patamar acima dessa escala mediana que sugeri no post é justo uma que tu não citou, Low Light. Gosto bastante de MFC também. As outras, nada me marca individualmente, mas o disco como um todo exerce esse estranho fascínio sobre mim.

    Vicente, tu mudou de e-mail?

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