Vinhetas e faixas instrumentais
Fabricio C. Boppré |Texto:
Uma coisa que eu admiro é uma banda que tem lá o seu vocalista, e que sabe encaixar uma música instrumental num álbum. Seja uma música mesmo, ou uma vinhetazinha. Tem que ter o dom para a coisa funcionar bem. Vejo duas competências envolvidas nisso: a primeira e óbvia, criar uma boa música, e a segunda, não obrigatoriamente necessária, mas que pode tornar a coisa realmente especial, encaixá-la no momento certo, no contexto certo. Claro, isso exige que haja um contexto. Não havendo, uma música instrumental simplesmente boa vai bem também. Mas costuma me chamar mais atenção é a ocorrência dessa segunda possibilidade aí. Como é o caso de uma das minhas preferidas, a Mellon Collie and the Infinite Sadness, que abre o álbum de mesmo nome do Pumpkins. Ela pega o ouvinte meio de surpresa com a coisa do piano, da melodia tristonha. Desarma o espírito, cria a expectativa/curiosidade para a jornada de música que vem a seguir, e daí a experiência é mais recompensadora (porque a jornada de música que vem a seguir é fantástica, como todos sabem). Então, outras que me ocorrem agora:
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Embryo e Orchid, do disco Masters of Reality do Black Sabbath: É o meu disco preferido do Sabbath, uma das bandas precursoras na música do mal, temas demoníacos e outras bobagens divertidas. E aqui eles abusam e metem duas instrumentais: a primeira, Embryo, mais simplezinha, mas que faz uma ponte enigmática e sinistra entre dois clássicos-monstros, After Forever e Children of the Grave. E depois ainda rola Orchid, uma instrumental acústica bem bonita, que torna o climão místico do álbum ainda mais legal.
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Blues for D, do disco Field Songs do Mark Lanegan: Essa se destaca mais por ser uma música muito bonita, individualmente. Meio etérea, pouco definida, parece que fica flutuando e sugerindo que há segredos escondidos em certas músicas, em certas camadas de som, mesmo que não haja ninguém lá verbalizando-os.
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Kaiowas, do disco Chaos AD do Sepultura: Uma das coisas que nós brasileiros podemos nos orgulhar é de termos dado ao mundo uma das mais espetaculares bandas de música pesadona, o Sepultura. Não me canso de ouvir ainda hoje o Roots, obra-prima fodíssima dos caras. A junção de sons que eles criaram nesse disco é das coisas mais memoráveis na história da música, sem exageros. Mas no disco anterior, o também ótimo Chaos AD, aparece uma primeira experiência com essa fusão na lindíssima Kaiowas, instrumental acústica de batida tribal e viola brasileiríssima. Funciona perfeita no meio dos berros e guitarras insanas, e talvez tenha inspirado a banda a ir ainda mais fundo nas experimentações, num caminho que gerou então o Roots.
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An Ending do Brian Eno: Essa é uma instrumental de um cara que compõe basicamente música instrumental, mas vou citar aqui pois ela, pelo menos em uma ocasião conhecida por mim, foi utilizada pelo Pearl Jam como abertura de seus shows. Dá de ouvir isso no bootleg Live In Atlanta, de 1994, para mim a melhor gravação de um show do Pearl Jam que há. A música rola como abertura, com a banda entrando, os aplausos alucinados, e logo as primeiras notas de Release começam. Pode parecer absurdo, mas dá de sentir a mágica do momento, só em ouvir a MP3. An Ending aparece ainda na trilha sonora do filme Extermínio, e na obra do Brian Eno, pode ser encontrada no álbum Apollo: Atmospheres & Soundtracks. É bonita além das palavras.
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Up The Beach, do disco Nothing's Shocking do Jane's Addiction: Também faixa de abertura, outra que entra por conta de ser belíssima individualmente. Bom, na verdade penso muito mais dessa música, é uma das minhas preferidas, num universo particular, entrelaçada em lembranças pessoais, coisa e tal. Então nem vou me estender, apenas dar a dica de que a versão ao vivo que aparece na coletânea Kettle Whistle é definitiva, de arrancar lágrimas.
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Belong e Endgame, do disco Out of Time do R.E.M.: Essas nem são de todo instrumentais, têm lá uns ôôô-ôôô-ôôôs e lá-lá-lás e uma espécie de narrativa por baixo de Belong. Mas ambas têm o efeito de instrumentais, e num disco onde meio tracklist é formado por canções de altíssima inspiração, umas pausas para expirar são bem-vindas. Ambas são bonitinhas, nada de especial, mas cumprem bem esse papel.
Quem tiver alguma outra boa lembrança, comenta aí!
Comentários:
Pet Sounds e Let's Get Away For A While criam esse mesmo clima que argumentasses, embora todo o disco seja dotado de uma musicalidade transbordante. Gosto quando o assunto do teu post acontece, mesmo que hoje eu escute muito mais música instrumental do que "cantada".
Meu preferido do Sepa ainda é o Chaos A.D. e sim, Kaiowas cai como uma luva. Tenho um pouco de encrenca com o Roots por achar que ele desovou o new metal no planeta Terra.
Vicente, sabe, não tinha pensando nesse lance do new metal já no Roots... ele é bem evidente no trabalho do Soulfly, ao meu ver, mas de fato tem lá uns maneirismos iniciais no Roots, sim. Mas, bem, aos precursores, dá-se um desconto, né não? Eles não tinham como saber no que ia dar os novos caminhos desbravados. E no Roots, em particular, acho que as outras influências que a banda misturou ao som ofuscam o lance incipiente do new metal (rótulo que nem devia existir na época)... bom, sei lá, concordo contigo, é um aspecto do álbum, sim, mas não chega a me incomodar, não.
PS: a todos que leram meu post, peço perdão pelos trocentos errinhos de digitação que haviam pelo caminho... fui reler hoje e fiquei de cara. As próximas revisões serão mais rigorosas!
Sem dúvida minha preferida é After the Laughter, penúltima faixa do Source Tags & Codes.
Em geral gosto muito das faixas instrumentais dos discos do trail of dead.
Do Trail of Dead, gosto da faixa de abertura do Source Tags and Codes. E se fosse citar as curiosas/divertidas, o Trail seria campeão, com a To Russia My Homeland, do Worlds Apart.
Aproveitando que o assunto é Trail of Dead, o muito esperado (pelo menos por mim) Century of Selfs já dá pra ser ecutado em streaming por este link: http://www.spinner.com/new-releases#/2
Pô, ótima dica, cara. Tô ouvindo aqui já...
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