Ten (LP)

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 29/07/2006

Pearl Jam

15 anos de lançamento

Ten completa, nesse próximo mês de agosto, seu 15º aniversário de lançamento. Muito já foi escrito sobre este primeiro disco do Pearl Jam, um sucesso estrondoso que deve ter ecoado até às imediações de Júpiter. Gosto bastante do álbum; ainda que não seja meu preferido do hoje veterano quinteto de Seattle, é um disco especial por outros motivos. Para homenagear nossos álbuns prediletos nesta seção Memórias, a idéia não é simplesmente descrevê-los sob a perspectiva da opinião pessoal, em termos qualitativos — para este fim já contamos com a seção de resenhas — mas relatar alguma impressão de caráter mais aleatório, alguma lembrança associada às primeiras audições, enfim, coisas nostálgicas em geral, que valham a pena recapitular por ocasião de seus aniversários. Ten, para mim, é um disco envolto em uma densa camada de nostalgia e boas lembranças.

Corriam os primeiros anos da mítica década de 90. A música se soldou à minha vida nessa época (pois é, existem aqueles cuja existência transcorre sem música), onde conviviam bem em meu cardápio musical pré-adolescente diversas bandas bastante diferentes, de Clash a A-ha, de Metallica a Dire Straits, de Sonic Youth a Information Society, de REM a Guns n’ Roses, de Led Zeppelin a Men at Work. Naturalmente, um gosto ainda em ebulitiva formação. Era a época das saudosas fitinhas cassetes, montadas a partir da programação das FMs (Near Wild Heaven foi gravada depois que eu e um amigo ligamos para a Transamérica pedindo por ela, e tivemos que cantarolar pro cara da rádio, pois não sabíamos o nome da música), dos vinis do vizinho mais velho que só ficava falando de Nirvana e Alice in Chains e que nos chamava toda vez que adquiria algum vinil novo, e dos recém lançados CDs, que logo começaram a ocupar uma prateleirazinha na locadora de filmes preferida do bairro.

Não sei precisar em que ano, se em 1991 ou 1992, caiu em nossas mãos uma fitinha 60 minutos que no lado B tinha parte do Staring at the Sea do Cure e no lado A uma banda desconhecida. A origem dela não tenho como registrar aqui — é uma recordação que não existe há muito tempo, lamentavelmente. Era uma fitinha Sony EF-X, um modelo mais antigo, de um cinza acrílico bem escuro (os modelos seguintes foram clareando cada vez mais). Não trazia nenhum nome de música nem de álbum, sabíamos apenas que ali tinha parte da coletânea do Cure e mais uma outra banda de nome curioso. Fizemos as cópias, recortamos umas tradicionais capinhas de surf a partir de edições velhas de Fluir e colocamos as fitas, objetos tão provisórios, em nossos portas-fitas — e, naquele momento, as músicas, imortais, incorporaram-se em nossas vidas.

Para ser mais exato, a gravação do Cure, iniciando com Killing An Arab, começava ainda no lado A, quando a quinta música do tal Pearl Jam terminava. Lembro perfeitamente ainda hoje do finalzinho em fade-out de Release emendando no inesquecível barulhinho de stop/rec e a formidável introdução de Killing An Arab. O interesse maior inicialmente era o Cure, banda que eu já gostava muito, mas só possuia músicas dispersas gravadas nas coletâneas de rádio, Boys Don’t Cry, Friday I’m In Love, entre outras. Mas, aos poucos, muito foram me chamando a atenção as cinco carrancudas músicas do Pearl Jam, e acho que rapidamente o lado A da fita se tornou o mais rodado.

Ver uma foto da banda foi acontecer somente algum tempo depois quando uma Fluir, que trazia em suas páginas finais uma seção sobre música (eu comprava muito pouco a Bizz, particularmente menos ainda nessa época), trouxe uma pequena notinha sobre o Pearl Jam e seu primeiro trabalho, Ten. De quebra ficamos sabendo o nome do disco. Conhecemos o disco completo logo na sequência, quando a locadora que tinha os CDs de música para locação adquiriu-o. Só então ficamos sabendo que as músicas da fitinha se chamavam Once, Even Flow, Alive, Black e Release, até hoje minhas preferidas. Nas primeiras audições do CD completo, gostei de todas as outras, menos Why Go e Jeremy, que, aliás, não gosto ainda hoje. De qualquer modo, Ten para mim é Once, Even Flow, Alive, Black e Release; o resto são faixas extras.

Contextualizando, já que alguém pode estar achando esquisita essa dificuldade toda: internet, só em 1997; MTV ninguém lá do prédio foi ter antes de, sei lá, 1995 ou 1996; comprar um CD ou um vinil era um evento raro, devido à escassez combinada de boas lojas, idade e dinheiro. Acho que naquela época, depois de adquirido o primeiro CD-Player, as primeiras economias de mesada foram destinadas à trilha sonora do Young Guns (sim, Jon Bon Jovi) e ao Scream in Blue do Midnight Oil.

Mas, aos poucos, as coisas foram ficando mais acessíveis. E, em algum momento, a fitinha se perdeu, foi reutilizada, sei lá. Olhando superficialmente o caixote de fitas guardado no armário das coisas inúteis-mas-não-descartáveis, vejo que pouquíssimas daquele modelo antigo de EF-X sobreviveram; no meio de 400, se houver cinco, é muito. Portanto, é pequena a probabilidade de que alguma destas tenha, por baixo de suas várias gerações de labels colados, um parzinho de labels escrito Pearl Jam e The Cure. Vai saber.

E a vida seguiu. O primeiro CD do Pearl Jam que comprei foi o Vitalogy, em 1994. É o meu Pearl Jam favorito. Acho que logo depois comprei o Ten, para descartar finalmente a fita gravada a partir do CD da locadora. Antes disso, provavelmente em 1993, comprei uma fitinha cassete original do Vs — de todas as coisas que já tive em minha vida e hoje não tenho mais, se pudesse escolher uma única para ter de volta, seria essa fitinha. Vs seria, se fosse continuar o ranking dos preferidos, o segundo colocado. Na terceira colocação, No Code teria leve vantagem sobre Yield e Ten. Agora, se o mote do ranking fosse o de discos com melhores lembranças afetivas, independente de bandas e época, Ten certamente figuraria ali nas primeiras colocações. Aos seus 15 anos de vida, praticamente todos passados em convivência íntima com 15 da minha (e muito provavelmente das suas também), minhas mais sinceras felicitações.

Memórias