Ok Computer (LP)

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 20/09/2008

Radiohead

10 anos de lançamento

Com um aninho de atraso, presto minha homenagem ao Ok Computer, 10 anos completados em junho de 2007. Não tenho nada de muito original ou revelador a dizer sobre o terceiro e cultuadíssimo disco do Radiohead, mas minha história com ele é curiosa, vale o relato. E, depois, as impressões pessoais e os elogios efusivos.

No ano da graça de 1997, eu devia ser um dos poucos caminhantes sobre a terra a não ter ouvido o Radiohead. O famoso comercial que utilizava Fake Plastic Trees nunca assisti, e os discos que certamente estavam lá na locadora de CDs que eu freqüentava, por algum motivo, nunca foram alvo de minha curiosidade. Mas, em 1997, não tinha como não trombar com o Radiohead. Depois de lançar Ok Computer, meio mundo dobrou-se diante dos cinco ingleses, a despeito da aparência singular de um deles, e foi lendo sobre tal fenômeno que finalmente resolvi ouvi-los, começando logo pelo tão falado novo álbum.

Lembro bem: voltando de uma aula na auto-escola, passei na locadora (se você morou em Florianópolis na década de 90 e gosta de música, certamente já nos esbarramos na Muzak) e catei o Ok Computer. O entusiasmo da turma era tal que não foram poucas as vezes em que li algum mais empolgado dizendo que aquele era o melhor álbum de música pop já lançado, uma opinião que ou você leva muito a sério ou você fica puto por existirem pessoas que são pagas para dizer tamanha bobagem, e você não é uma delas. Caminhando de volta para casa, eu pensava em como algumas profissões eram irresponsáveis e divertidas e por que diabos eu estava estudando para ser analista de sistemas.

Chegando em casa, o disco rodou uma, duas, três vezes e nada. O saldo eram somente três ou quatro músicas legais e o tempo perdido lendo opiniões exageradas de outras pessoas. Para não desperdiçar os 1,50 reais gastos na locação, gravei as tais três ou quatro músicas, completei um único lado de uma fitinha cassete de 60 minutos com mais alguma coisinha e foi isso. Como prova de minha excitação quase zero com o que ouvi, eu nem lembro que músicas foram essas.

Esse foi meu início bizarro com o Ok Computer. É claro que em algum momento a ficha caiu. E é claro que não é por nada que tanta gente resolveu dizer, já em 1997, que este é o melhor álbum já gravado.

Na verdade, lembro de uma das faixas gravadas, Let Down, e foi com essa música algo milagrosa que comecei a me dar conta que, de fato, ali não estava um disco qualquer. Seu começo vago, o compasso que parece desajeitado e vai acertando aos poucos, a delicadeza da melodia, e lá pelas tantas Thom Yorke cantando “you know where you are with, floor collapses floating, bouncing back, and one day, I’m gonna grow wings”, são sempre minhas referências para a maravilhosa experiência que é Ok Computer. Ouvi-la com atenção é ainda hoje um remédio místico, um ritual que me enfia num estado de sossego e compreensão da minha posição no mundo que música alguma fez por mim antes, ou virá a fazer, aposto. Uma coisa é preciso compreender, logo: há músicas que são muito mais do que músicas, e há poucas delas, e destas poucas há poucas como Let Down. Demarcado esse nível de transcendência, agora estamos falando de Ok Computer.

O título do álbum, um punhado de letras compartilhando uma clara temática, a narrativa de Fitter Happier (a cargo de Fred, uma das vozes do Mac de Thom Yorke): compreender Ok Computer passa por, num primeiro estágio, identificar-se com a desilusão que emana dali. Se você não enxerga o quão absurdo é você ter um carro e, dentro dele, se submeter voluntariamente ao trânsito dia após dia, talvez o que se canta neste álbum não lhe diga respeito. A impotência diante dos entediantes e algumas vezes perigosos protocolos da vida urbana, aeroportos, airbags, alarms, IMF, business, more productive. É essa a matéria com a qual Ok Computer é feito. Música que vai te fazendo perceber que você mal percebe a vida. Que, atualmente, “you can’t smell a thing”. É a visão particular de Thom Yorke, diga-se, mas uma visão que encontra eco em uma boa parcela das gentes do mundo moderno, uma multidão silenciosa que toca suas vidas num ambiente que lhe escapa ao controle.

Já estamos um tanto distantes da pureza, no entanto. Então, que façamos algo de belo com nossa condição. Por isso, e a despeito da arte-gráfica branca e fria, da denúncia da confusão da civilização, dos versos que imploram pela fuga antes que seja tarde demais, e a despeito de uma boa dose de distorção, Ok Computer é no geral um disco inspirador, confortante, pois confronta diretamente o que há de angústia e de trágico com a beleza da música. E a beleza sai vencedora. Sai vencedora por um placar de diferença infinita no clímax de arrepiar um réptil de Exit Music, por exemplo. Na perfeição serena e melancólica de The Tourist vai além: talvez você mude o rumo de sua vida ao ouvir Thom Yorke cantar “hey man, slow down”. (Quero dizer, cantar eu também canto, o que esse homem faz nessa música merecia um novo verbo.)

Apesar de toda essa riqueza lírica e do vocal em nenhum momento menos que fantástico, é verdadeiramente a música a atração principal do álbum. Música que parece cintilar, ora desenrolando-se sobre batidas arrítmicas e sujas, ora cristalina como a neve – mas sempre bela de tirar o fôlego. Fosse todo instrumental, Ok Computer ainda assim seria magnífico. Variando da esquizofrenia de uma Paranoid Android (sobre a qual tudo já foi dito – até a próxima vez que você ouvi-la) à simplicidade de uma No Surprises, chego mesmo a desconfiar que as guitarras que ecoam nesse disco são realmente o que de mais bonito já se fez na música. Pop ou não; pop, rock, rótulo que seja, é pequeno para uma obra deste quilate.

Karma Police, Airbag, Lucky e as outras fizeram 10 anos agora há pouco, mas nem foi preciso esse tempo todo para colocar Ok Computer entre os de sua mesma espécime, a dos discos imortais. De lá para cá o Radiohead já lançou outros discos geniais e talvez ainda mais visionários, mas Ok Computer segue como um marco, um marco que havia de ser fincado antes que se virassem o século e o milênio. Nós, os seres humanos, somos capazes de olharmos para nós mesmos e, não importa em meio a quanta burocracia e poluição estejamos atolados, fazer música como essa, cantar nossas desventuras da forma como foi cantada aqui. As perspectivas não são boas, mas vale a pena seguir em frente se for em companhia de arte como essa.

Memórias