Nevermind (LP)

Por Eduardo Carli de Moraes, publicada em 09/2006

Publicado originamente no blog Dirty Little Mummy

Nirvana

15 anos de lançamento

[1]

É difícil pra mim, quase impossível, falar sobre Nevermind, Nirvana e Kurt Cobain com a tal da imparcialidade jornalística, com uma racionalidade toda fria, me atendo somente aos fatos: esse é daqueles discos com os quais muitos de nós, eu inclusive, tem uma ligação totalmente passional e fanática, um elo afetivo muito forte, que impede de saída qualquer “frieza” e que exige um texto exaltado, com o termômetro da subjetividade batendo no topo… Porque, vocês sabem, esse é daqueles discos que, para muitos e muitos, se torna muito mais do que um disco: é uma parte de nossas vidas, um xerox de nossas almas, um espelho de nossos sentimentos. Mas isso é um lance que só entende quem também é fã.

Num levo na esportiva quem se meta a falar mal do Nirvana — é o mesmo que xingar minha mãe, mexer no meu vespeiro, me cutucar com vara curta; perco a compostura, tá!? (UI!) Sou daqueles que tem vontade de tirar todos os crucifixos da parede (quem precisa de Jesus quando tem Cobain?!) e colocar no lugar um poster enorme com aquela capa clássica, o menininho pelado, debaixo d’água, sendo fisgado por uma nota de dólar. E eu adoraria ver o hino nacional americano substituído por Smells Like Teen Spirit.

Em setembro de 1991, quando Nevermind saía do forno, eu estava com sete aninhos de idade recém-completados e não tinha a mínima ideia de quem era Kurt Cobain, Nirvana e Seattle. Meu “conhecimento” musical provavelmente se restringia somente àquelas trilhas sonoras toscas da infância — do Balão Mágico, do Carrossel e dos Cavaleiros do Zodíaco, provavelmente — só coisa fina. Quando comecei a ouvir Nirvana, Kurt já era pó e metade dos críticos de rock do mundo esperavam ansiosamente pela chegada de um disco ou banda de impacto semelhante. Que nunca veio. Até hoje.

15 anos atrás esse terremoto chamado Nevermind despencou nas lojas de discos fazendo um estrago extremo. Era pra ser o somente primeiro álbum lançado por uma grande gravadora (a Geffen) de uma obscura banda da região de Seattle, que antes havia gravado apenas um disco (o tosco Bleach, de 1989, gravado por uma merreca e lançado pela Sub Pop sem muita repercussão). Previsão de vendas: 50 mil cópias.

Hoje já sabemos bem o tamanho do impacto que esse disco causou: o que a bomba de Hiroshima foi para o Japão e o tsunami foi para a Indonésia, Nevermind foi para a história do rock nos anos 90 e o clipe de Smells Like Teen Spirit foi para a MTV de 1991. Esse foi o disco que mudou tudo, que redefiniu todo o cenário, que varreu do mapa muito lixo (e nos salvou de pestes tenebrosas como Michael Jackson, Bon Jovi, Axl Rose e toda a “cena hair metal” [aquilo dava M E D O !]) e que deixou a maior das cicatrizes na carne do rock durante a década de 90. Nevermind foi uma porra dum fenômeno sociológico!

Claro, Nevermind, antes de mais nada, foi, é e sempre será um baita dum disco de punk rock, empolgante, energético, catártico, daqueles que você curte de cabo a rabo, música a música, verso a verso, cantando junto cada refrão, sentindo calafrios a cada berro… Não é à toa que o lado A inteirinho seja composto por hits que tocaram até cansar: Smells Like Teen Spirit, In Bloom, Come As You Are, Lithium e Polly. O “lado B”, onde se concentram as músicas que não estouraram, tem pelo menos a virtude fenomenal de manter o disco no mesmo nível de excitação e empolgação — e não são poucas as pessoas que, hoje em dia, ouvem Nevermind só a partir da faixa sete, acompanhando mais uma sequência matadora de grandes hinos grunge-punk: Territorial Pissings, Drain You, Lounge Act, Stay Away, On A Plain e Something In The Way.

Desde Rocket To Russia, Nevermind The Bollocks ou Back in Black não surgia um álbum de rock tão explosivo, coeso, revolucionário e bom do começo ao fim. Era ao mesmo tempo headbangável e pogável, capaz de agradar igualmente a fãs de punk rock, heavy metal e rock alternativo, e que foi também um dos raros casos em que a crítica e o público cantaram elogios quase em uníssono. Difícil ver uma banda que, mesmo tendo vendido umas 15 milhões de cópias de seu disco mais famoso, conseguiu ainda tê-lo elegido como álbum da década (qualitativamente falando) por uma série de renomadas publicações, incluindo a Bizz brasileira e a Spin inglesa, só pra ficar com dois pesos-pesados.

Acho exagero dizer que o grunge nunca teria existido sem Nevermind — o Pearl Jam, o Soundgarden, o Alice in Chains, o Mudhoney e o Screaming Trees eram bandas boas demais para que não tivessem conseguido se destacar e se sobressair mesmo sem a mão-na-roda que foi a explosão fenomenal do Nirvana. É quase certo que Seattle, com ou sem a fama imensa conquistada pelo segundo álbum de Kurt, Krist e Dave, teria se tornado o epicentro do mundo pop no começo dos anos 90. Com uma concentração tão densa de boas bandas, lugares bacanas pra tocar e revolucionários projetos de gravadoras independentes (viva Sub Pop!), Seattle estava condenada, para o bem ou para o mal, a se tornar o foco de atenção supremo no começo dos anos 90.

Com uma série de discos clássicos saindo um depois do outro (Badmotorfinger, Facelift, Ten, Sweet Oblivion, Temple Of The Dog, Superfuzz Bigmuff, …), Nevermind foi só o catalizador do processo, o grito de alerta que atravessou oceanos e puxou todos os olhares do mundo para aquela região do noroeste americano que, de uma hora pra outra, tornou-se o canto mais cool e vigiado do planeta, enquanto o clipe de Smells Like Teen Spirit bombava na MTV e se tornava um dos maiores fenômenos da história da emissora. Jimi Hendrix também era um cidadão nato de Seattle, mas nunca antes na história a cidade tinha conhecido tamanha efervescência musical e tanta atenção dada a ela pela imprensa mundial — o que foi muito bem detalhado no documentário “Hype!”, de Doug Pray, lançado no Brasil pela Bizz.

O Nirvana certamente não era uma banda de excelentes músicos. Dave Grohl com certeza era um baterista fenomenalmente poderoso, mas Kurt e Krist Novoselic, os dois vindos da escola do punk rock e do indie tosco, tinham aprendido só o basicão do basicão e estavam cagando e andando pra papos de conservatório musical. E é claro que sempre vão existir aqueles caras chatérrimos, defensores de um rock mais progressivo e sofisticado, que descerão lenha em cima do Nirvana só porque todas as músicas são socação de power chords mergulhados em distorção máxima e porque Kurt “não sabia cantar”. Não vou ficar aqui respondendo aos críticos do Nirvana e tentando argumentar racionalmente que Nevermind, In Utero, Unplugged In New York e todo o resto prestam sim. Mas eu realmente preciso explicar com palavras por que esse diabo de disco é tão fodidamente bom? Não sei, mas acho que as minhas palavras seriam baboseira frente à música… Quem entende, entende. Quem sente, sente.

[2] Meu Kurt é assim…

Mas quem era Kurt Cobain? Poucas coisas me deixam mais puto (e olha que eu sou um cara sussa) do que os desafetos do Nirvana colocando qualquer rótulo fácil numa pessoa tão complexa, tão ambígua e tão difícil de entender, dizendo que o cara era só um “deprimido”, só um “junkie” ou qualquer outra etiqueta parecida, como se fosse possível esgotar o que foi uma vida através de uma palavra, um conceito, um estereótipo. Vale mais o esforço pra tentar conhecer o homem por trás da arte, o que não é nada fácil quando se trata de Cobain. “Mesmo aqueles que o conheciam melhor achavam que quase não o conheciam”, diz Charles Cross, e Kurt realmente não se esforçava muito em elucidar o mistério que muitos de nós, fãs, tentamos desvendar: mas quem é esse tal de Kurt Cobain, de verdade?

Eu tenho um Kurt Cobain pessoal, o Kurt Cobain como eu imagino que ele foi, construído depois de todas as biografias, resenhas, matérias e entrevistas que vi — e vou tentar pintar um “retrato” aqui. Alguns podem achar que é delírio de fã ou que tô forçando a barra, mas eu confesso: me acho muito parecido com Kurt, em personalidade, em visão de mundo, em sentimentos sentidos — o que é também normal: porque a gente só se torna fã daqueles que consegue entender e se identificar.

Lembro de ter lido certas frases de Kurt, reunidas no livro “Odeio-me e Quero Morrer” (que foi publicado só em Portugal), e achar que eram coisas que eu gostaria de ter dito e que descreviam perfeitamente a minha própria vida. Por exemplo essa: “nas minhas composições, há sempre um profundo dualismo: na minha vida, como nas minhas canções, metade das vezes sou um incurável niilista e na outra metade reconheço-me sincero e vulnerável.” E o meu Kurt é assim, meu soulbrother, oscilando entre o niilismo mais brutal (esse mundo é uma merda! Deus está morto! Viver não vale a pena! Ninguém nos ama!) e a vulnerabilidade e a honestidade mais doce e mais desarmada (como se pode ver em certos momentos do Acústico MTV, aquela paz, aquela serenidade…).

Kurt, o meu Kurt, é aquele garotinho que ficou traumatizado e ferido desde a infância porque teve que enfrentar o divórcio dos pais ainda cedo. A criança que ficou sendo passada de parente pra parente, feito batata quente, sem ser verdadeiramente querida por ninguém, até que se sentisse como um fardo que era chutado pra cima e pra baixo. O divórcio dos pais de Kurt, segundo a biografia “Mais Pesado Que o Céu”, “era uma guerra, cheia de ódio, despeito e vingança”, algo muito parecido com “uma rixa sangrenta”. Esse processo, segundo Cross, equivaleu a um “holocausto emocional” para o pequeno Kurt e “nenhum outro evento isolado em sua vida teve mais efeito na conformação de sua personalidade”.

Kurt nasceu e cresceu numa cidade pequena, Aberdeen, perto de Seattle, um lugarzinho aparentemente trash, tosco e ultra-tedioso. Segundo a descrição de Cross, a população estava em declínio por causa da emigração causada pelo desemprego; as taxas de alcoolismo, violência doméstica e suicídios aumentavam vertiginosamente; pipocavam prostíbulos baratos e botecos proletários. Aberdeen, segundo uma das revistas Look de 1952, era “um dos pontos quentes na batalha americana contra o pecado” (haha!). Não exatamente o habitat mais adequado pra que florescesse uma criança sadia e feliz.

Kurt, o meu Kurt, era aquele tipo de moleque que, na escola, ficava de cabeça baixa durante todas as aulas, entediado até num poder mais, se entretendo com fantasias sangrentas onde o professor era enforcado no poste ou explodia como uma bomba relógio. Ficava só rabiscando porcaria na carteira, perfurando a borracha com a lapiseira ou fazendo desenhos macabros e bizarros nas folhas do caderno. Estudar pra quê, aliás? Pra entrar na faculdade, arranjar emprego, constituir família, ficar velho e depois morrer, todo enrugado e ressecado e de cabelos brancos? Kurt era o cara que não via sentido nisso tudo.

Era também o garotinho retraído, introspectivo, que falava pouco, que nunca ia ser a estrelinha da turma, o quarterback pra quem as cheerleaders pagavam pau, o CDF que os professores adulavam. Acostumado às sombras, não era nem admirado nem zoado, nem bonito nem feio, o tipo de pessoa que não fede nem cheira. Não era o ódio do mundo o que ele tinha que suportar: era só a indiferença. Não era de falar muito, e provavelmente olhava com raiva para todas as pessoas que tagarelavam tanto sem ter nada a dizer. Gostava de ficar sozinho no quarto, soltando sua raiva reprimida nas páginas de seu diário (“um dispositivo terapêutico obsessivo-compulsivo pelo qual ele conseguia soltar seus mais íntimos pensamentos”, segundo Cross), expressando todos os seus sentimentos vagos com seus desenhos, desabafando através da arte, destilando seus demônios.

Kurt era o cara que, sensível demais aos horrores do mundo, não podia evitar colocar em dúvida a existência de um Deus bondoso e toda a ladainha religiosa que nos enfiam cabeça a dentro. “A maioria das discussões religiosas entre os dois [Kurt e sua amiga Tracy] era sobre se Deus poderia existir num mundo cheio de tanto horror”, conta o “Mais Pesado Que o Céu”, “com Kurt assumindo a posição de que Satã era mais forte.”

E, claro, Kurt era o tipo de jovem que odiava tudo, principalmente a si mesmo, claro, mas toda sua vida, sua escola, sua família (ou a falta dela), o mundo em geral, e que queria enfiar em seu organismo qualquer substância química que fizesse esse ódio, essa dor e essa angústia sumirem, ao menos por um tempo. Certamente não era coisa agradável ter um relacionamento com Kurt Cobain: “manter uma relação íntima com ele significava viver em um mundo de escapismo saturado de opiatos”, sugere Charles R. Cross, referendado por seus companheiros de banda. “Ele estava realmente a fim de ficar chapado: drogas, ácido, todo tipo de droga. Ele ficava chapadão na metade do dia. Era um pirado”, disse o baixista Krist Novoselic.

E Kurt, claro, não conseguia suportar nada que se parecesse com o mundo da alta sociedade, da alta cultura, do entretenimento de massas. Vejam o que diz o biógrafo: “[…] nunca tinha havido um astro do rock como Kurt Cobain. Ele era mais um antiastro do que uma celebridade, recusando-se a entrar numa limusine para ir à NBC e conferindo uma sensibilidade frugal a tudo o que fazia. Apresentou-se no Saturday Night Live com as mesmas roupas que vestia nos dois dias anteriores. Nunca antes na história da televisão ao vivo um artista havia dedicado tão pouco cuidado à sua aparência ou higiene, ou assim parecia.” Ele era tipo um vira-latas pulguento que se negava a seguir à risca a postura kitsch que é exigida pela máquina da mídia — vestir-se com roupas de marca, passar duas horas no cabeleireiro, submeter-se à maquiagem, esconder todos os seus podres. Queria inserir-se no meio da assepsia reinante como um detrito sujo que não aceitava ser limpo ou empurrado pra baixo do tapete.

Kurt era também o infinitamente sarcástico, aquele que não conseguia levar a sério nada do que as pessoas sérias levam a sério, aquele que sempre acharia ridículo e absurdo vestir um terno, trabalhar num escritório e ir pro shopping center nos fins-de-semana. Queria libertar a criança idiota e perversa que tinha dentro de si — e não são poucas as idiotices, maluquices, diabruras e gracinhas de mau-gosto registradas sobre ele, sempre louco para ofender, chocar e demolir os clichês.

E Kurt, o meu Kurt, como eu o imagino, foi o garoto que viveu até o fundo o Sonho do Rock and Roll, que imaginou-se maravilhosamente vingado de todos os que o desprezaram e ignoraram, que teve inúmeras fantasias sobre a imensa felicidade que sentiria quando estivesse lá, na frente de uma plateia imensa, no topo das paradas, finalmente amado e querido pelas multidões. E que descobriu, amargamente, que nada disso curou sua angústia e sua solidão. Que descobriu que o preço a pagar por chegar no topo é a queda. Que descobriu que o mal-estar permanecia lá — e as drogas, mais necessárias e indispensáveis do que nunca. Que descobriu que a fama não salva ninguém. E talvez seus últimos dias tenham realmente sido tão desoladores quanto Gus Van Sant sugeriu em seu filme “Last Days”, aquele labirinto asfixiante de sofrimento silencioso.

[3] Me odeio e quero morrer!

Hoje, sabendo do que sabemos sobre o final do filme da vida de Cobain, já olhamos pra Nevermind com um perspectiva diferente daquela que o mundo voltou para o disco na época de seu lançamento. Em 1991, Nevermind foi um fenômeno de vendas, um disco-maremoto, um “criador de estilo”, um dos discos de rock mais excitantes e originais a serem lançados em muitos anos — e que prometia revolucionar o rock de uma maneira que só encontra similar no Ramones ou no Nevermind The Bollocks dos Sex Pistols, dos longínquos ano de 1976/1977. Hoje já olhamos para trás sabendo da iminência do desastre, com os olhos de quem já sabe do desfecho trágico do destino de Kurt Cobain, e podemos enxergar nesse disco de rock, aparentemente tão energético e afirmativo, alguns prenúncios do que viria a acontecer em 1994. O In Utero, para muitos o melhor disco do Nirvana (não me perguntem: eu não consigo escolher!), já deixa ainda mais explícita a desagregação emocional de Kurt, a depressão, a agonia (por exemplo no niilismo sônico extremo de Tourettes ou Milk It — é como se a gente ouvisse o cara deslizando pro abismo.

Sempre achei extremamente fascinante todo esse lance do suicídio de Kurt Cobain. Todos os suicidas, na verdade, exercem em mim um certo fascínio, despertam a minha curiosidade até o limite, até que eu fique louco pra descobrir mais sobre suas vidas, tentando elucidar o mistério: o que foi que os levou a uma atitude tão extrema, tão “foda-se tudo”? Claro: as fantasias suicidas nunca me foram estranhas e já pensei em morrer pelo menos umas 500 vezes nessa vida. E sempre achei mais fácil entender os que se matam do que aqueles que dizem que a vida é um playground todo feito de felicidade, compreensão e paz. Saber que um certo artista se matou sempre me pareceu uma ótima razão para conhecer o seu trabalho, como se isso fosse uma garantia de que a arte produzida por ele era realmente séria, verdadeira, genuína. Acho que eu nunca teria lido Sylvia Plath, Ernest Hewingway ou Virginia Woolf sem que soubesse do pequeno detalhe biográfico instigante: eram suicidas.

No caso de Kurt Cobain, ou no de Ian Curtis, saber que eles se suicidaram sempre me pareceu uma prova incontestável de que a angústia que eles sedimentaram em suas canções era genuína. Ora, Kurt Cobain se matou! Então está provado: aquela raiva que ele soltava aos berros em suas músicas, aquela angústia que saturava tudo o que ele criava, aquele mal-estar profundo que ele parecia sentir no fundo da alma, não eram fingimento. O cara era mesmo irado, era mesmo angustiado, era mesmo superpovoado de demônios que precisava exorcizar através de sua arte. Ele num tava de brincadeira.

Mas o suicídio de Kurt Cobain, dentre todos os suicídios que conheço e ouvi falar, é o que mais me fascina. Porra, esse cara tinha tudo para amar a vida que tinha conquistado! Ainda jovem, já tinha se tornado um dos maiores rock-stars do planeta, cultuado por grande parte da juventude universal, incensado pela crítica, podendo conhecer todos os seus ídolos pessoalmente, de William Burroughs aos caras do Sonic Youth. Estava casado com uma mulher que aparentemente amava, e que era fodida e anormal o bastante para entender a fodição e anormalidade dele, e que entendia bem toda a ética e todo o estilo de vida do punk rock. Tinha uma filhinha recém-nascida, uma mansão, a conta bancária recheada de dólares. E mesmo assim, estranhamente, Kurt Cobain, aos 27 anos de idade, mesma idade em que morreram Hendrix, Janis e Jim Morrison, tinha escolhido a morte. Ele parecia ter tudo, e tinha escolhido dizer aos milhões que o idolatravam que a vida não vale a pena…

Foi uma das poucas vezes em que o niilismo venceu e proclamou sua “mensagem” para as multidões. “Mais Pesado Que o Céu”, a excelente biografia de Charles R. Cross, jornalista da Rolling Stone, é um dos livros mais tristes, asfixiantes e trágicos que eu já li. Tem hora que parece com um tenebroso romance ao estilo de William Burroughs ou Hubert Selby Jr. (o autor de “Réquiem Para Um Sonho”), retratando a fatal peregrinação de um junkie terminal por um inferno na terra, entrando e saindo de clínicas de reabilitação, lidando mal com sérios problemas de saúde (principalmente estomacais), enredado uma depressão e numa falta de perspectivas completamente sem solução…

A gente pode inventar mil e uma histórias sobre esse suicídio, desde as mais maçantes e complexas averiguações sobre, sei lá, “os efeitos corruptores da fama”, até as mais mirabolantes teorias conspiratórias imputando a terceiros, por exemplo à Courtney Love, a culpa pelo ocorrido (como fez o filme “Kurt & Courtney”). Mas qualquer um que vá atrás da história de vida de Kurt Cobain sabe que seu suicídio pode ter sido qualquer coisa menos uma surpresa: ele o anunciou e o ameaçou aos brados por anos e anos, repetidas vezes, disfarçadamente pedindo por ajuda, fazendo a velha chantagem emocional que fazem todos os suicidas…

Em inumeráveis entrevistas Kurt tocou no tema do suicídio e fez o elogio empolgado da autodestruição e da morte na juventude. Kurt Cobain era o tipo de cara que poderia ter feito uma tatuagem enorme na testa com os ditos LIVE FAST, DIE YOUNG, de tão fanático que era por esse slogan. Esse é o cara que dizia, sarcástico, que “queria morrer antes de se tornar Pete Townshend”, zoando o líder do The Who por ter podido escrever em My Generation um verso como “I hope I die before I get old” e depois ter ousado sobreviver até a velhice… Crime imperdoável!

Esse é o cara que dizia com toda a convicção do mundo: “nunca vou chegar aos trinta. Você sabe como é a vida depois dos trinta — eu não quero isso.” Esse é o cara que pensou em intitular o álbum sucessor de Nevermind como I Hate Myself And I Want To Die, só muito depois renomeado In Utero. Esse é o cara que tinha combinado com a esposa que, caso eles perdessem a filha, iriam cometer um suicídio duplo. E, é claro, esse é o garoto que por toda a sua vida tinha tomado porres homéricos e usado todas as drogas possíveis e imagináveis, em quantias sempre exageradas, tentando esquecer do seu sofrimento na embriaguez dos tóxicos. O comportamento autodestrutivo sempre foi um componente básico da personalidade de Kurt Cobain e o seu suicídio foi quase uma conclusão “natural” da sua vida.

Mas o triste é saber que ele berrou de dor, em público, por anos e anos, e que essa sinfonia de berros, gemidos e choros, gravado em discos que milhões possuíram, visto em clipes que milhões assistiram, não foi o bastante para salvar sua vida. É incrível: todo mundo sabia que Kurt estava triste, perdido, confuso, infeliz, magoado e com vontade de morrer. E, cacete, não havia ninguém ao redor do cara que pudesse salvá-lo?! Onde estavam as pessoas que o amavam, que se importavam com ele, que o queriam livre do seu sofrimento e do seu vício? É uma das coisas mais tristes pensar que ninguém pôde impedir que Kurt concretizasse um suicídio anunciado dúzias de vezes — talvez porque fingiram que a coisa não estava tão preta, talvez por não terem se importado, talvez pois nunca realmente o conheceram. Ou talvez por que simplesmente não sabiam o que fazer?

Depois de uma insistência maníaca e várias e várias tentativas frustradas, Kurt, naquele trágico 5 de abril de 1994, finalmente fez tudo certo para conseguir morrer. Tomou uma quantidade de heroína estupidamente alta, capaz de matá-lo de overdose, fácil fácil, e só teve alguns segundos para disparar um tiro contra a cabeça antes que a droga o fizesse capotar. Mesmo que não tivesse atirado, garantem os especialistas, teria morrido do mesmo jeito. Naquele dia, cauteloso e metódico como um assassino que não deseja falhar de modo algum em sua missão sangrenta, Kurt Cobain armou para si duas armadilhas fatais. Não, não há dúvida de que ele estava a fim de ir embora e pedir demissão do mundo: naquele dia Kurt Cobain se matou duas vezes…

[4] Abaixa esse volume, moleque!

Difícil saber como terminar isso. Eu tinha guardado a frase bombástica a seguir pra fechar o texto. Enquanto existirem adolescentes vivendo em casas onde os pais ouvem Bee Gees, assistem à novela das oito e vão à missa todos os domingos, haverá adolescentes que vão achar no Nirvana a trilha sonora ideal para dizer a eles e ao mundo um sonoro “vá tomar no cu!”. Mas aí percebi o quanto ela merecia ser desenvolvida e explicada…

Os pais desse mundo, quase todos eles, são tão sem-noção, tão desconectados com as verdades dos corações de seus filhos, que quase sempre entendem a música que os adolescentes ouvem em termos de “abaixe o volume dessa porcaria!” ou “assim você vai prejudicar a audição!”. Não, amiguinhos, eles nunca vão entender a nossa relação maníaca de fanatismo e devoção com a música, nunca vão entender como pode um disco de rock, que parece ser só um amontoado de barulho e gritaria, mudar nossas vidas; nunca vão sentir os calafrios de excitação que sentimos na pele no refrão de Smells Like Teen Spirit, e tantas outras. Não, eles nunca vão entender… E nunca chegam a realmente prestar atenção na barulheira que escapa dos alto-falantes dos nossos quartos trancados, nem chegam nunca a suspeitar que ela possa ser um modo alternativo de expressão…

Isso eu acho pra lá de interessante: o fato de que nós ouvimos música não só para nós mesmos, e não só para “conhecer” a expressão dos outros e o que eles “têm a dizer”, mas que utilizamos a música alheia para expressar sentimentos próprios… Vocês alguma vez já se pegaram ouvindo música para os outros? Ligando o aparelho de som num volume estupidamente alto, não porque vocês achem isso super agradável e divertido, ou porque querem judiar dos tímpanos feito masoquistas, mas para que as outras pessoas ouçam vocês ouvindo? Nevermind pra mim sempre foi um dos discos que eu mais quis botar pra rolar pros outros me ouvirem ouvindo… Isso diz muito sobre mim, e sobre todos nós, fãs do Nirvana.

As pessoas que nunca amaram o rock and roll, que nunca tiveram suas vidas e adolescências marcadas por ele, nunca vão entender que nossa relação com a música vai imensamente além da procura por algo que seja “agradável aos ouvidos”. Chega a ser ridículo, e eu fico até com raiva, essa gente que só sabe abordar a música em termos de ser “agradável” ou não, como se fosse uma mera questão de mecânica, de cócegas nos órgãos auditivos, algo de meramente corporal, quando para nós, nós que vivemos o rock and roll não como música mas como alimento para a vida e como estilo de vida, sabemos que a música não tem a ver somente com os ouvidos, mas com o nosso ser inteiro, nossa alma inteira…

Se me permitem uma psicologização tosca, eu chego a dizer: o nosso gosto musical está diretamente vinculado com as estratégias que usamos pra definir nossa identidade, pra descobrir e publicar quem somos, pra expressar o que se sentimos. É como se escolhêssemos pelo mundo algumas bandas e artistas que, “grudados” a nós, acoplados ao nosso eu, oferecem ao mundo uma imagem de nós mesmos que nos parece mais agradável e mais admirável. A música pode ser uma maneira de expressar para o mundo sentimentos com os quais nos identificamos, que sentimos em nós mesmos, e que já foram expressados por outras pessoas de modo muito melhor do que nós mesmos poderíamos expressar. Temos nossos CDs e nossos aparelhos de som e nossos artistas prediletos, e eles servem não só para que a gente possa “curtir um som”, mas para que eles expressem por nós, como que por procuração, aquilo que sentimos e pensamos e que, por uma razão ou outra, não podemos expressar tão bem quanto eles.

Imaginem um adolescente, incapaz de articular direito sua raiva e sua insatisfação, incapaz de dar seu grito de rebeldia, encontrando em Nevermind o maior dos aliados: basta que ele coloque aquele disco no aparelho de som, bombe o volume até o máximo e dê um PLAY, e lá está dado o grito e mandada a mensagem, pra papai e mamãe, pra toda a vizinhança, “para o mundo”. Quando não temos voz, sempre podemos recorrer ao aparelho de som, devidamente munido da possibilidade de atravessar os ares, atingindo os ouvidos alheios com uma “mensagem” de nossa escolha. Pena que, na maioria das vezes, ela não seja entendida. “Abaixa esse volume, menino!”, é a única resposta que nos chega de volta dos nossos pais, tão interessados na tranquilidade do lar e na reputação que vão ganhar com os vizinhos que se desinteressam completamente daquilo que os filhos possam estar sentindo e expressando — e o que é que podemos estar tentando dizer através da música que escolhemos adorar…

Por isso que eu sempre vou achar que 15 milhões de cópias vendidas de Nevermind é muito mais que um fenômeno econômico ou uma modinha criada pela indústria de discos com interesses lucrativos. Chego a ver nisso muito mais um sintoma do estado psíquico de uma multidão de jovens ao redor do mundo, por mais pretensioso que seja fazer um “diagnóstico” desse tipo. Mas sim: Nevermind fez tanto sucesso pois reconhecíamos nele nossa alma; e nós só elevamos o Nirvana ao status de banda mais adorada de nossa geração porque a gente sentia no coração muito daquilo que Cobain conseguiu expressar: aquela raiva, aquela angústia, aquele impulso autodestrutivo, aquele ódio por tudo que é alegrinho demais, aquele desejo de rasgar o kitsch em mil pedaços, aquele desejo de berrar, aquela vontade de morrer…

Guitarras distorcidas até às beiras da explosão dos amplificadores; gritos estridentes e rasgados de pura angústia; uma vida de excessos, abscessos e morte prematura: é nisso que milhões de jovens resolveram se espelhar. Foi esse homem — extremamente confuso, perdido, deprimido, cheio de sofrimento e aflição — que escolheram idolatrar. Eram esses sentimentos por ele expressados — a raiva, a frustração, a tristeza, o niilismo, o desespero, a angústia, … — que sentiam milhões no mais secreto de seus corações.

Não, Kurt Cobain não é nada parecido como um modelo a ser seguido, uma divindade a ser cultuada, nem mesmo um artista que mereça qualquer adjetivo semelhante a “gênio”. Se ele foi tão grande, e capturou tantos seguidores, e empolgou tantos milhões de corações, foi mais por ter conseguido expressar toda a frustração, raiva e angústia de uma imensidão de jovens para quem a vida parecia não fazer muito sentido e que parecia nem valer muito a pena. Kurt Cobain pode ter recusado com veemência toda a baboseira messiânica (“não suporto ser chamado de porta-voz da minha geração, pois não tenho nada a expressar senão meu profundo mal-estar…”, disse ele uma vez), mas ele foi sim a pessoa em quem milhões se espelharam, o rock-star que milhões idolatraram, o criador desses discos sublimes que serviram para que milhões dessem também seu grito, apertando um play; foi sim, quer queira quer não, o nosso porta-voz, aquele a quem emprestamos o microfone para que falasse por nós; nosso herói, nosso mártir e nosso irmão…

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