Mellon Collie and the Infinite Sadness (LP)

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 10/2005

Smashing Pumpkins

10 anos de lançamento

Texto escrito em homenagem aos 10 anos de lançamento de Mellon Collie and the Infinite Sadness.

Até a metade de 1995, a discografia do Smashing Pumpkins era formada por três discos que já haviam sido suficientes para imputar ao grupo o status de um dos preferidos do renovado público do rock’n’roll, cujo perfil havia sido recém remodelado pelo furacão grunge. Gish, o debut lançado em 1991, apresentava uma banda ainda em formação, fazendo nada muito diferente do que trocentas outras bandas faziam influenciadas por Black Sabbath ou Jesus and Mary Chain, para citar somente uma referência clássica e uma contemporânea à época. Nas letras de um Billy Corgan ainda cabeludo talvez já residisse algum diferencial artístico, mas no geral é um disco de proporções limitadas. Siamese Dream, 1993, é sem dúvida alguma um passo à frente nesse contexto particular, ainda que seja também um álbum bastante relacionado ao rock alternativo e seus estouros de guitarra e melodia que eram a marca de 8 em 10 discos mais bem cotados nas paradas daqueles tempos. Rock alternativo que, diga-se de passagem, começava a deixar de ser tão alternativo assim. Completava a obra Pumpkins a coletânea de b-sides Pisces Iscariot, lançada em 1994, de identidade um pouco mais sortida, o que pode ser atribuído ao fato de ser um disco formado por canções de diferentes fases do grupo e experimentações que não couberam nos dois discos oficiais lançados até então. Três bons álbuns, em especial Siamese Dream e seus hits arrasadores como Cherub Rock, Disarm e Today, mas que não apontavam explicitamente para o que a banda faria a seguir.

Nesse ponto, o ditador da banda, Billy Corgan, havia tratado de criar expectativa em todos aqueles que acompanhavam seu grupo, ao dizer que a próxima obra do Smashing Pumpkins seria um divisor de águas. Se dizia influenciado por novos sons e declarava que sua banda lançaria um disco verdadeiramente relevante. Um trabalho febril em estúdio, que começou em fevereiro de 1995 e só foi terminar em julho, foi levado a cabo pelo grupo ao lado dos produtores Alan Moulder e Flood, para tentar materializar as pretensões de seu líder. Sessões que chegavam a durar 16 horas e a obsessão meticulosa de Corgan para com o resultado final levaram o grupo a um estado de esgotamento emocional que quase decretou o fim prematuro da banda. Mas tudo valeu a pena. O resultado, o álbum duplo Mellon Collie and the Infinite Sadness, apareceu nas prateleiras das lojas de discos americanas no dia 24 de outubro de 1995. Vale lembrar que o trabalho foi complementado no ano seguinte pelo box set The Aeroplane Flies High, que traz cerca de 30 canções que não couberam em Mellon Collie and the Infinite Sadness. Até que me provem o contrário, a quantidade de canções notáveis gravadas pela banda nesse reduzido espaço de tempo é algo inédito na história da música.

Mellon Collie and the Infinite Sadness se transformou, em poucos dias, no álbum duplo mais vendido da história, teve vários hits com clips exibidos exaustivamente na MTV, e outras estatísticas mercadológicas mais, mas isso tudo não me interessa. O fato é que desde a primeira vez que botei os ouvidos neste disco, o que ocorreu em janeiro de 1996, algo me ligou a ele de maneira magnética e definitiva. Não que isso possa interessar a alguém, mas de quantos discos você pode dizer algo parecido? Pois é, espero que poucos. Até já tentei escrever sobre antes, tentativa essa miseravelmente malograda, é lógico. Mas no mês que Mellon Collie and the Infinite Sadness faz 10 anos, sou obrigado a esboçar algumas frases novamente — ao menos dessa vez conto com a ciência de que escrever sobre um disco que lhe é mágico é tarefa impossível. Eu diria que minha visão é superficialmente a que segue.

Mellon Collie and the Infinite Sadness é uma obra magistral, arrebatadora desde sua introdução instrumental até a canção de despedida. Repleta de paixão e ousadia, barulho e melodia, fúria e graça, é um tour de force de uma banda decidida a criar um álbum que vá além daquilo que todos os outros álbuns do mundo oferecem aos seus ouvintes (o grau de sucesso da banda nessa empreitada é algo que cada um deve deduzir por si só, mas creio que a essa altura já deve ter sido possível perceber qual a minha opinião). A mais saliente conseqüência dessa ambição, a variedade sonora presente em suas aproximadas duas horas de duração, levou muitos a torcerem o nariz, ao mesmo tempo que levou tantos outros a apontá-lo como um marco. Para o segundo grupo, a grandiosidade que a banda não negou em sua concepção veio acompanhada de inspiração e execução compatíveis, o que levou o Smashing Pumpkins a marcar o mundo da música com uma obra-prima vigorosa e pungente. Mas, ao contrário do que pode parecer, não se trata de um conjunto de músicas complexas ou de significados profundos — muito pelo contrário. A maioria das canções são de assimilação imediata; a banda estava em seu auge criativo, jorrando melodias lapidares, refrões memoráveis e afiação instrumental na ponta dos cascos, explorando até o limite cada uma dessas virtudes e sem impor fronteiras ao seu processo criativo (o que incluiu um arsenal de instrumentos diversificados à disposição), em especial, às composições de Billy Corgan. De conceito, tem-se somente a superficial impressão que Corgan quis escrever sobre a variedade de sentimentos e estados de espírito que nós da espécie humana somos acometidos, com alguma frouxa conexão com os subtítulos dados aos discos, Dawn to Dusk e Twilight to Starlight. A questão é que o poder da música ofusca qualquer tentativa de teorias maiores sobre seu conteúdo e eventuais sentidos encadeados.

Para ilustrar isso tudo, a primeira atitude naturalmente considerada seria uma descrição faixa-a-faixa, mas estou certo de que isso renderia um maçante tratado sobre a diversidade de adjetivos que podem ser utilizados em um texto cujo tema é música. O mosaico musical é muito amplo: o riff seco e robótico de Zero, os lentos e melancólicos dedilhados de To Forgive, a melodia pop frugal e de astral nostálgico de 1979, os guitarrismos dilacerantes de Muzzle, a delicadeza atmosférica de In the Arms of Sleep, o caos sonoro de Tales of a Scorched Earth, a batida eletrônica ruidosa e suja de Love, o clima idílico da canção de amor By Starlight, a sonoridade fantasiosa e meiga de Cupid De Locke, a urgência intensa de Jellybelly, a ingenuidade quase arcaica de Lily, e por aí vai. Mais importante do que prosseguir nessa lista é ressaltar que todas essas canções convivem perfeitamente bem apesar de suas aparentes distâncias e incompatibilidades, provavelmente devido ao fator comum que existe entre elas: a altíssima inspiração que dá vida a cada faixa, transformando-as em capítulos independentes de uma admirável jornada musical. Em resumo: uma profusão de canções ininterruptamente excepcionais concebidas sem maiores laços físicos e um álbum fabuloso em sua totalidade.

Um exemplo destes contrastes: Stumbleine é uma pequena canção formato violão-voz, de uma beleza inequívoca e singela, que faz você pensar que nada além de um violão deveria ser necessário. Logo a seguir, separadas por mínimas unidades de tempo, a algazarra absurda de XYU, que parece ter sido gravada a partir de uma jam em estúdio onde os membros da banda tocavam alucinadamente e Corgan urrava qualquer coisa por cima, sem saber que eram gravados. E isso estranhamente faz sentido. E como esse mesmo disco pode abrigar a esquisitice psicodélica de We Only Come Out At Night, que poderia estar na trilha sonora de “The Fearless Vampire Killers”, caso Roman Polanski tivesse dirigido sua comédia sobre vampiros depois de 1995?

Quando não estava com a imaginação totalmente desvinculada de bases tradicionais, a banda serviu-se de todos os arquétipos possíveis de canções de rock, sempre com espetacular sucesso: do então formato básico verso-calmo-refrão-explosivo de seu hit maior, Bullet With Butterfly Wings, ao peso cadenciado e sólido de Here Is No Why, passando pela sinfonia épica de microfonias de Porcelina of the Vast Oceans, pela raiva incontida e anárquica de An Ode To No One, culminando na devastadora Bodies. Nessas citadas e em algumas outras, o Pumpkins esculacha: guitarras inflamadas e absolutamente empolgantes são a tônica. Mas notem que, o que em muitos discos é o diferencial, a virtude encerrada em si só, em Mellon Collie and the Infinite Sadness é apenas um aspecto.

Um outro fator que me intrigou desde o início da minha história com esse disco é o esmero que a banda dedicou à abertura e ao fechamento de sua obra. Após uma bonita e rápida introdução ao piano, Tonight Tonight abre os trabalhos de maneira inesquecível: Billy Corgan cantando sobre uma noite de redenção, amparado por uma perfeita combinação de música clássica (violinos em primeiro plano) e guitarras, é um dos maiores legados deixados por Mellon Collie and the Infinite Sadness à música contemporânea. E Farewell and Goodnight, a derradeira canção, possui toda uma beleza e ternura que fazem com que o ouvinte que não passou incólume pela audição do álbum estabeleça definitivamente uma relação de afetividade com ele, que dificilmente será quebrada pelo resto de sua vida. “Goodnight, my love, to every hour in every day / Goodnight, always to all that’s pure that’s in your heart” são as últimas palavras, antes do mesmo piano da faixa de abertura entrar em cena novamente para terminar a viagem.

Antes de concluir, pelo menos duas canções merecem um parágrafo dedicado: Thru The Eyes of Ruby, com seus ricos detalhes e camadas de guitarras, é, de todas as 28 canções desse disco, aquela mais dificilmente transposta para palavras. Reza a lenda que 25 trechos gravados independentemente estão comprimidos ali naqueles sete espetaculares minutos. Mas não falamos aqui de virtuosismo e complexidade tais quais são normalmente associados a excessos de guitarra e produção: cada trecho, cada evolução de Thru The Eyes of Ruby contribuem de maneira intrínseca para um crescendo de dimensões grandiosas cujo desfecho, com Corgan cantando que a noite chegou para nos tornar eternamente jovens, está entre as maiores criações artísticas humanas (antes de achar isso um exagero, lembre-se que se trata meramente da minha opinião). Ruby é, das músicas perfeitas, a mais perfeita. Thirty-Three é outro momento de inspiração única e execução brilhante: uma canção de âmago simples, cujo arranjo bucólico forma uma moldura perfeita para o lirismo de Corgan. Duas faixas bastante diferentes entre si, exemplos perfeitos para ilustrar os predicados desta obra-prima.

Já se passaram 10 anos do lançamento de Mellon Collie and the Infinite Sadness, e há quase essa mesma quantidade de tempo eu venho ouvindo-o freqüentemente, sempre com a mesma admiração e catarse de sentimentos. Já é parte inexorável de minha vida. Se, ao longo da sua, você desenvolveu ligação igual com algum disco, então há de me entender quando digo que colocar essa satisfação em palavras é impossível. Ficam então esta segunda tentativa frustrada e a minha humilde reverência, nesta data simbólica.

Memórias