In Utero (LP)

Por Fabricio C. Boppré, publicada em 30/11/2008

Nirvana

15 anos de lançamento

In Utero está completando seus 15 anos de lançamento. E eu estou a alguns poucos meses de completar meus 30 anos. Em metade de minha vida, este disco esteve por aí. É uma simetria legal, que eu tentei de alguma forma romantizar para usar na introdução deste texto, mas não consegui. Simplesmente porque não dou muito valor para essas coisas, essas datas comemorativas e números redondos, para mim fazer 30 anos será como foi fazer 14 ou 23 ou como será quando eu fizer 40 ou 65. No máximo me animo para sair e comer uma pizza. Para o aniversário do In Utero, e nesta ocasião simbólica da simetria com o meu próprio tempo de vida, me prestei a colocá-lo para tocar mais frequentemente nestes últimos dias, relembrando o deleite que esta música estupidamente boa suscita ainda, mesmo passada aí década e meia de seu lançamento.

Parte do fascínio que Kurt Cobain ainda exerce vem de uma suposta atitude semelhante, essa coisa de “don’t give a fuck” para determinadas convenções da vida, coisas que para outros é obrigatório atribuir alguma importância ou cerimônia. Diz-se que ele não ligava para o sucesso, não ligava para a MTV. Não ligava para roupas — subia no palco sempre vestindo quaisquer que fossem os jeans e camisetas velhas de bandas desconhecidas (então, tcharam!, elas ficavam conhecidas) que tivesse tirado ao acaso de seu armário de manhã. Isso cativou as pessoas, e muito devidamente, diga-se de passagem, se levarmos em conta o contexto da época. E ainda hoje é objeto de culto. Mas não me pareceu nunca algo de todo genuíno. Sempre percebi como um pouco forçada essa espontaneidade do líder no Nirvana, e a leitura do “Heavier Than Heaven”, ótima biografia de Kurt escrita por Charles R. Cross, só veio a confirmar isso. Havia sim algo — bastante, talvez — de cálculo nas ações de Kurt Cobain, no trato com a mídia e tudo mais. Ele mais que aprendeu e adotou esse estilo punk rock do que o teve sempre como algo natural em sua personalidade.

Mas que diferença isso faz, a essa altura? Provavelmente tanto quanto a rebeldia de butique dos Sex Pistols inventada pelo Malcolm McLaren. O punk rock, o original e o repaginado nos anos 90 pelo Nirvana, já são parte hoje da cultura pop, já não é muito mais do que uma “forma”. As discussões relevantes para o futuro da humanidade já saíram do âmbito da música, do rock ‘n’ roll, faz bastante tempo — se é que de fato elas lá estiveram, em algum momento. A leitura do também ótimo “Kill Me Please” sepulta de vez a aura mítica-social do punk rock. Exceções sempre vão existir para confirmar a regra, é lógico, e aí está o legado do Clash. Mas, no geral, a coisa toma proporções maiores do que as intenções originais, ao encontrar personagens ansiosos por atenção. A intenção original de Kurt Cobain era sim ter uma banda de sucesso, dentro da normalidade, aquela coisa de adolescente que de repente percebe um futuro no ramo artístico, musical. Subvertendo um pouco a lógica, quando a coisa saiu do controle, ele passou a garantir que não, que detestava tudo que lhe acontecia. O resto da história todo nós conhecemos.

O niilismo de Kurt Cobain tinha também algo de sincero, é lógico. O livro de Cross deixa isso claro, quando narra a infância de Kurt, seus gostos, suas inclinações estéticas/artísticas, a tendência à autodestruição. Um tiro na cabeça (e as tentativas de suicídio frustradas anteriores), em que se pese a responsabilidade das drogas consumidas vorazmente, empresta alguma credibilidade ao comportamento de Cobain, da forma mais sinistra possível. Mas depois tudo aquilo passou a ser também parte estratégia, para administrar a insegurança e seus outros muitos problemas. E isso não diminui o Nirvana, ou o mito de Kurt Cobain. Porque o que fica, no final das contas, é a música. O resto é acessório: vai sendo contado e recontado e interpretado sob diversas óticas, através do tempo, até que um dia destitui-se de um interesse maior e fica somente nas páginas da história, ou das revistas. Um parênteses filosófico aqui: isso sempre me faz ficar tranquilo com o fato de sermos finitos; ter o tempo de vida limitado evita que vejamos as coisas que nos são caras se tornarem ultrapassadas, um direito bem justo em compensação ao dever de morrer; fecha parênteses. Mas a música produzida pela talento do cara — aí sim, inquestionável e honestíssimo — essa segue sua trajetória, vai sendo revisitada de tempos em tempos, ocupa espaços permanentes nas nossas prateleiras (ou, nos dias de hoje, em nossos computadores), influenciando gente em desacordo com a música de seu tempo, deixando saudade em quem a teve como importante peça em sua formação musical. E claro, tocando e tocando, gradualmente cada vez menos, mas nunca arquivada por completo. É certo que não temos ainda uma bagagem suficiente para afirmar isso como verdade absoluta, mas pelo menos um ou dois milênios de história musical me fazem concluir as coisas por aí.

Por isso vale abstrair uma eventual imagem desgastada de uma banda ou artista e celebrar um disco como In Utero, hoje nos seus 15 anos, amanhã, quando ele fizer 30 anos, 100 anos. Essa reflexão toda acima é para ressaltar a música, e aqui trata-se de uma música que muitos julgam melhor que a de Nevermind, ou seja, não é pouca coisa.

O que eu ouço em In Utero sempre me traz à cabeça uma imagem que dá de abreviar como “música primitiva”. É simples, feita com poucos recursos, mas com matéria-prima raríssima, resultado de sentimentos puros, sem filtros, sem as deformidades e artificialidades dos excessos de produção e retoque. Nem por isso rasa ou passageira. É simplesmente verdadeira, ao contrário do que víamos fora dos palcos (ou às vezes mesmo nele), daquilo que era exigido do Nirvana além da música, na posição de ícone cultural e midiático. Elementos externos não tinham vez e as (poucas) variações musicais não desviavam a rota estabelecida pelas fixações de seu compositor. Por vezes raivosa e ríspida, como em Scentless Apprentice ou Milk It, por vezes doce e desarmada como em Dumb e All Apologies, é o Nirvana no que ele tinha de extraordinário e incorrompível: sua música. E identificando-se com ela ou não, o aspecto mais notável ao longo de In Utero é que ali está uma identidade, explícita desde as letras até a capa do álbum. É arte expressa pela voz bem particular de um indivíduo — bastante perturbado, logicamente, mas isso nunca foi impeditivo para a criação artística, muito pelo contrário.

Aqui discutem-se lembranças, sobretudo, e as minhas relacionadas ao In Utero me remetem ao pigarro de Serve The Servants (uma das minhas preferidas do Nirvana), à adrenalina de Tourette’s, ao desconcerto que Very Ape me provocava (uma música tão curta, tão óbvia… e tão fantástica), à melodia de Heart-Shaped Box e às dificuldades impostas aos ouvintes em Radio Friendly Unit Shifter. Me remetem àquele tempo pré-internet, das fitas K7 e gravações entre amigos, idas às lojas de discos, o prazer inigualável de comprar um CD, abri-lo e ouvi-lo pela primeira vez, bem alto para que todos ao redor ouvissem. Bom, aquele papo nostálgico que aqui nesta seção de memórias você já cansou de ler.

Indo por outro caminho então: é curioso como antes nos envolvíamos mais com nossos discos e artistas preferidos. A coisa era bem mais relevante, valiosa; hoje anda meio sucateada. Mesmo que o álbum morasse ainda numa fitinha K7, aguardando o dia em que o dinheiro da mesada fosse suficiente para comprar o disco, ainda assim o laço entre você e a música era mais íntimo. Era o meu caso: durante bastante tempo tive o álbum gravado em fita, só em 1997 fui comprar o CD, numa lojinha em Miami, num janeiro de férias nos EUA. Comprei o In Utero e o From the Muddy Banks of the Wishkah. Mas é claro que o disco já me era totalmente familiar, fruto das incontáveis audições das fitas, e de aluguéis regulares do CD na locadora. Naquele tempo, as descobertas auditivas eram mais prazerosas, compensadores. Por exemplo, ler que o disco tinha sido produzido pelo Steve Albini (e futuramente sacar as similaridades com o trabalho do Shellac, a banda de Albini), com a intenção de fazê-lo mais cru e selvagem. A partir disso, uma vaga cena imaginada da banda em estúdio, tocando e gravando todos ao mesmo tempo (ao invés da gravação separada de instrumentos, vozes, etc), cigarros e chá por todos os lados (os problemas de estômago de Kurt não o permitiam tomar café), um lugar amplo e vazio que aprofunda todo o som que é produzido em seu interior, ecos curtos ressoando atrás de toda a música e que vai sendo registrada mesmo assim, junto com as outras pequenas imperfeições desse processo artesanal. Esse imaginário pessoal, isso é inesquecível e prazerosissímo, e bastante saudoso hoje em dia. In Utero ocupa lugar importante no canto do meu cérebro destinado a essas lembranças afetivas.

Lembro também que eu preferia algumas das versões acústicas do Unplugged in New York, em comparação às originais de In Utero. Era o caso de Dumb e Pennyroyal Tea. Mas é assim mesmo um disco demolidor, que mal dá espaço para qualquer tentativa de crítica negativa, música impositiva que te nocauteia com ferocidade e genialidade que só fazem todo o resto da história ficar ainda mais trágico. É, duro pensar nisso, mas ficará para sempre sem resposta a pergunta que todo mundo se fez em algum momento, depois de abril de 1994: o que será que o Nirvana poderia vir a fazer, não tivesse Kurt Cobain atirado contra sua cabeça e posto fim à banda que era a expressão de seu espírito e sua personalidade particularíssima? As inquietantes desculpas pedidas por antecedência na última canção de In Utero não aliviam em nada essa questão.

Dá tranquilamente de dizer que o mundo mudou bastante, desde então. Mas o vácuo deixado pela banda continua sendo isso, um vácuo. É como se In Utero tivesse deixado uma ponta solta, uma ponta que não poderá nunca mais ser retomada, amarrada e continuada. Bandas e artistas bons, ótimos, geniais, estão por aí, lançando discos o tempo todo. Não sou do tipo que se lamenta pelas coisas que “não são mais como eram antigamente”, costumo adaptar-me bem ao meu tempo-espaço. Mas o Nirvana e sua música já estão num outro plano, algo que ligou-se intrinsecamente à sua época, algo que temo que não veremos mais, uma realidade incompatível com os tempos atuais onde as coisas são rápidas, passageiras, uma grande disponibilidade que gera uma grande rotatividade. No caso do Nirvana, ficou um legado minúsculo, é verdade, mas ainda hoje eu ponho para tocar In Utero e me arrepio como quando tinha 15 anos, 15 anos atrás, e isso é realmente algo que não deve ser ignorado.

Memórias