Grace (LP)

Por Eduardo Carli de Moraes, publicada em 15/05/2009

Publicado originalmente no blog Depredando o Orelhão

Jeff Buckley

15 anos de lançamento

There’s no time for the hatred, only questions: What is love? Where is happiness? What is life? Where is peace? Where will I find the strength to bring me release? Tell me where is the love in what your prophet has said! Man, it sounds to me just like a prison for the walking dead! Oh, I’ve got a message for you and your twisted hell! You better turn around & blow your kiss goodbye — to life eternal, angel…

(Jeff Buckley)

Love is not a victory march, It’s a cold and it’s a broken hallellujah…

(Leonard Cohen)

Foi uma das mortes mais misteriosas que o rock já conheceu. Conta a lenda que, na noite de 29 de maio de 1997, Jeff Buckley, 30 anos de idade, bebeu um pouco de vinho, entrou num afluente do rio Mississipi completamente vestido e cantando alto um clássico do Led Zeppelin. Depois de alguns minutos nadando de costas, desapareceu debaixo d’água, deixando pasmo o amigo que tinha ficado ali, na margem, só observando a extravagância do companheiro. Dias e dias depois, o cadáver foi descoberto boiando nas águas do lendário curso d’água, aquele mesmo que testemunhou o nascimento do blues e que, nesse dia, servia de leito funerário para um pequeno gênio da música americana… E até hoje, sem achar resposta, ficamos a nos perguntar: o que diabos aconteceu?

As investigações da polícia concluíram “afogamento incidental”, já que nenhum sinal de intoxicação química foi encontrado no corpo de Jeff e a hipótese de suicídio parecia improvável. O fato é que, naquela noite, o mundo perdia um dos maiores talentos musicais que tinham surgido nos anos 90: Jeff Buckley, filho do mito do folk Tim Buckley, deixava atrás de si um pequeno legado — mas um que não pararia de emocionar, conquistar corações e influenciar dúzias de músicos e bandas. As dez músicas de Grace (além das quatro do EP Sin-é) são o único documento musical que Jeff Buckley lançou em vida. Depois, é claro, como é costume, uma avalanche de lançamentos póstumos chegariam às lojas, incluindo o inacabado segundo disco Sketches For My Sweetheart The Drunk, alguns álbuns ao vivo (com destaque para o ótimo Mystery White Boy), coletâneas de EPs (Grace EPs) e relançamentos de projetos antigos (Songs For No One, com Gary Lucas).

A morte trágica de Jeff, que parecia ecoar o fim de seu pai, morto após uma overdose de heroína em 1975, aos 28 anos, foi o que bastou para selar seu destino como um mito de primeira grandeza — e hoje não há dúvida de que ele é um dos maiores ídolos cults dos anos 90 e Grace um dos discos mais peculiares, tocantes e lindos da década. O sucesso comercial nunca veio de verdade (ele era bom demais para o mainstream), mas Jeff Buckley conquistou uma série de fãs famosos que ajudaram a fazer seu elogio e propagandeá-lo: de Patti Smith (que convidou-o para um dueto em Beneath The Southern Cross) a Jimmy Page (que o considerava um dos melhores vocalistas surgidos nos últimos 20 anos), de Brad Pitt (que considera a música de Buckley “uma obsessão” e que esteve cotado para encarná-lo na telona) a Chris Cornell (que gravou Wave Goodbye, linda música de seu primeiro disco solo, em homenagem e tributo a Jeff), de Elizabeth Frazer (a vocalista do Cocteau Twins) a Bono Vox, entre muitos outros.

A história, em resumo, é a seguinte: Jeff Buckley deixou sua Los Angeles natal para tentar a sorte em Nova York no começo dos anos 90 e deu um jeito para se inserir na cena folk e boêmia do Greenwich Village — onde tocou por alguns anos em vários barzinhos, cafés e boates, lentamente construindo uma procissão de fiéis seguidores, até ser descoberto por uma grande gravadora e lançar, em 1994, este Grace. Steve Berkovitz, um dos chefões da Sony Music, revelou em entrevista à BBC (para o documentário Everybody Here Wants You) o tamanho da empolgação que Buckley causou. Era crença geral na gravadora de que ele se inscreveria na história do rock junto a nomes míticos de primeira grandeza: “acho que a Columbia e a Sony meio que pensaram que a coisa seria: Dylan -> Springsteen -> Buckley”. Não somente ele era o filho de um grande mito musical do passado, como também tinha um talento próprio inegável — não é à toa que tinha assinado um contrato de um milhão de dólares (!!) com a Columbia.

E Grace, apesar de não ter virado um sucesso de vendas espantoso (Last Goodbye foi a única música a se tornar um semi-hit), foi amplamente elogiado pela crítica e parecia ser apenas a primeira pedra na construção de um edifício que teria tudo para ser monumental. Todo mundo pensava que Jeff Buckley iria lançar uns 30 discos, gravar até fazer 70 anos de idade e consagrar-se como um dos gigantesco deus do rock — sim, na altura de um Dylan, de um Springsteen, de um Van Morrison… Mas ah! Esse foguete, na ascendente, explodiu em pleno voo — e até hoje os fogos de artifício resultantes dessa explosão se esparramam pelos céus do rock, para deleite dos nossos olhos.

Convivo com Grace há pelo menos uns 8 anos, o que já basta para dizer que somos amigos de longa data, íntimos, inseparáveis, que não brigam jamais — e é incrível que eu não tenha enjoado nem um pouco de um disco que já escutei na íntegra dezenas e dezenas de vezes. Há alguma coisa aqui que impede que essas músicas envelheçam, algo que não deixa a familiaridade se tornar enjoo, algo que permanece sempre novo, sempre fresco, sempre tocante. Eu não acho difícil me imaginar com 60 anos de idade e ainda gostando de Grace tanto quanto sempre gostei (mais fácil do que ser um velhinho que curte Nirvana, isso é. :)

Grace não foi somente um mero princípio promissor de uma carreira que tinha tudo pra ser brilhante. Foi sim um clássico instantâneo e reconhecido como tal antes mesmo do fim trágico de Jeff. Essas 10 canções foram o suficiente para escrever seu nome na história da música nos anos 90 — e, se me permitem um pouco de sentimentalismo, mesmo que não houvesse mais gravação alguma disponível (felizmente há bastante material, como provam os vários lançamentos póstumos), só Grace já bastaria para que eu levasse Jeff Buckley e sua música primorosa pra sempre inscritos no coração.

Jeff Buckley é certamente um dos meus cantores prediletos de todos os tempos: que voz! QUE VOZ! Que união perfeita entre um feeling extremo e uma técnica espantosa. Que coragem para passar do sussurro que beira o silêncio ao grito mais primal. Que ousadia para ir até o limite extremo da voz, até o ponto em que parece que as cordas vocais já estão prestes a se rasgar. É de deixar boquiaberto.

Sempre me deixou pasmo, por exemplo, a maneira como ele conseguia prolongar a voz — dar um “sustain” — por um tempo incrivelmente longo, como no final de Grace, quando ele tira do fundo da alma um inacreditável grito — que sempre me dá uns calafrios lá no fundo da alma. E, como nota muito bem o Gary Marshall, Jeff Buckley nunca se deixou dominar pelo exibicionismo ególatra que contamina muitos vocalistas de talento (“he never let his ego get in the way of the songs and Grace is mercifully free of the vocal histrionics that plague most naturally talented singers”, diz Gary). E o melhor: ele parecia ter uma conexão íntima e profunda com as letras e nunca cantava palavras que não tivessem uma ressonância sentimental. “I need to inhabit every bit of a lyric”, disse ele em outra entrevista, “or else I can’t bring the song to you — or else it’s just words…”

Sim, Grace está longe de ser um disco “homogêneo”. O mesmo garoto que cantava aos sussurros a melancólica balada entrava num transe cobainiano e berrava como um endemoniado sobre um fundo quase speed-metal em Eternal Life. O mesmo cara que cantava com voz afeminada e operística Corpus Christi Carol soltava a voz como um bom rock star no refrão explosivo de Mojo Pin, o que levou alguns a acharem Buckley um cara incoerente e que não soube dar unidade ou continuidade ao álbum. Não concordo. Pra mim a coisa faz todo o sentido e a variedade de estilos em Grace só comprova a variedade dos gostos e habilidades de Buckley, um artista realmente plural e um vocalista ultra-eclético e de voz realmente abençoada. O lance é que ninguém aprende a cantar desse jeito: essa voz é um dom. É graça.

Tim Buckley, o paizão, também era um cara bastante eclético e que usava sua voz com uma radicalidade extrema –– mas acho bobagem reduzir a música do Jeff a uma mera continuação da obra do seu velho (que Jeff, aliás, mal conheceu, o influenciou muito pouco e morreu quando ele era ainda criança). Apesar da semelhança de voz inegável (a genética explica), Jeff Buckley foi pescar suas influências em outros lugares: no Led Zeppelin e nos Smiths, em Van Morrison e Janis Joplin, no Big Star e no MC5, na diva francesa Édith Piaf e no paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan. Page & Plant, como ele sempre confessou, tiveram para ele uma influência muito mais marcante do que a música e a voz do pai. “A primeira voz pela qual me apaixonei”, disse em uma entrevista, “foi aquela do jovem Robert Plant” — e ele completava, engraçadinho: “na época em que ele soava como a Janis.” (É um momento hilário: “He was trying to sound like Howlin’ Wolf, but he didn’t. He sounded like some fucking animal.”)

O disco inteiro é excelente e eu nunca tive vontade de pular música nenhuma, mas é claro que tenho minhas prediletas. Grace, a música, é um fenomenal exercício de exorcismo da morte e tem um dos clímaxes mais arrepiantes que eu conheço; Lover, You Should Have Come Over me lembra as melhores coisas do The Queen Is Dead dos Smiths e é, fácil fácil, uma das minhas 10 músicas prediletas em todos os tempos; o grunge Eternal Life, que entra rasgando a tranquilidade do disco com guitarras distorcidas e gritos irados, é um das músicas de rock pesado que eu mais admiro e que mais me emocionam entre todas que já ouvi –– e tem outro daqueles clímaxes inacreditáveis…

As três covers também foram muito bem escolhidas e, melhor que isso, são muito mais do que meras “cópias” das originais: Jeff transformou cada uma delas em uma coisa absolutamente sua. A lindíssima versão para Hallellujah, de Leonard Cohen (já gravada também por John Cale), é um daqueles casos de cover que ultrapassa a original de tal maneira que fica em seu lugar como a versão definitiva e incomparável — mais ou menos do jeito que foi com a versão de Hendrix para All Along The Watchtower, de Bob Dylan. O standard jazz Lilac Wine (famoso na voz de Nina Simone) e o exercício vocal de Corpus Christi Carol (de Benjamin Britten) também ficaram excelentes.

Grace é um disco atormentado, sim, cheio de angústia e melancolia, onde a voz é quase sempre o veículo para um lamento todo dolorido — repleto de sombras, como se essas músicas estivessem todas mergulhadas na penumbra. Em Last Goodbye, é a morte do amor (“I hate to feel the love between us has died — but it’s over”) e a distância e a dificuldade de vencer as barreiras entre os amantes (“Why can’t we overcome this wall? Well, maybe it’s just because I didn’t know you at all”) o que ele narra; em Lover…, é a ânsia por um amor impossível de satisfazer (“I’m broken down and hungry for your love, with no way to feed it… Oh, child, where are you tonight? You know how much I need it”) e a falta de experiência e de sabedoria (“Maybe I’m just too young to keep good love from going wrong”); em So Real, é simplesmente o medo de amar, confessado com uma simplicidade tocante (“I love you, but I’m afraid to love you… I’m afraid to love you”). Conheço poucos versos que pareçam mais sinceros, mais humildes e mais verdadeiros.

Ouvir o canto frequentemente lamentoso de Jeff não é algo que deprima; é algo que eleva, purifica e comove — porque o lirismo e a beleza estão lá para redimir toda a tristeza. A morte é também um fantasma presente em vários cantos do álbum, mas nunca a coisa descamba pra morbidez. A mensagem de Eternal Life é que devemos aceitar nossa finitude, por mais amargo que isso seja (“You better blow your kiss goodbye to life eternal, angel”), já que a morte, como canta ele em Grace, não é assim tão má: “Não tenho medo de ir”, canta, “Ela me lembra de toda a dor que vou deixar pra trás”.

Sim, a vida de Jeff, breve como foi, e tão tragicamente interrompida, não deixa com isso de ter sido completa e de ter rendido lindos frutos. Sim. Mas como evitar a imaginação dos futuros que nunca serão? Ah, tudo o que ele poderia ter sido… Nós todos, fãs de Jeff Buckley (mas não só dele: de Kurt Cobain, de Elliott Smith, de Nick Drake, de Schubert e de tantos outros que morreram ainda na juventude, e com tanto ainda a dizer), não conseguimos evitar essa sensação de termos perdido demais com sua morte — apesar de termos ganhado tanto com sua vida.

Muito da beleza trágica de Grace está em saber que o cara que deu à luz esta pérola não passou mesmo de uma estrela cadente, que passou pela Terra espalhando pelo céu um brilho efêmero mas memorável, antes que a morte, como sempre faz, tenha rasgado bruscamente um trabalho em andamento. É um destino trágico, sim, que nos sugere que nossas vidas nunca vão passar de rascunhos que nunca teremos tempo de passar a limpo… mas que belos rascunhos saem, às vezes! Pelo menos, se isso serve de consolo, é bom saber de algo que ficou dessa vida — e algo de magnífico. E é bom saber que sempre teremos Grace e suas dez músicas nos fornecendo um interminável alimento para a saudade…

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