Sonic Youth

Biografia

A trajetória do Sonic Youth é uma das mais peculiares e inspiradoras na história do rock ‘n’ roll, sendo parte indissociável daquilo que em algum momento se tornou identificável o suficiente para ganhar um rótulo próprio, o rock alternativo. E também no capítulo “rock independente” o Sonic Youth é referência primordial.

A história da banda inicia-se no final da década de 70, onde os movimentos undergrounds de Nova York proliferavam-se e chamavam a atenção de muitos jovens artistas e músicos. Entre estes estavam Lee Ranaldo e Thurston Moore, que se mudaram para a Big Apple interessados justamente em algumas manifestações musicais que rolavam por lá, como a No Wave e o punk rock. Juntos, eles tocaram na “guitar-opera” de Glenn Branca, um músico que organizava apresentações onde havia sempre muitas guitarras, chegando às vezes a terem seis delas tocando ao mesmo tempo. Tanto Ranaldo como Moore já haviam participado de pequenas bandas anteriormente (a última de Ranaldo foi o The Pluks e a de Moore foi o The Coachmen).

Já no início da década de 80, Moore estava namorando com a baixista Kim Gordon, que também era muito interessada em rock alternativo e também já havia participado de alguns grupos, como CKM. Assim, não demorou para que Moore e Gordon resolvessem formar uma nova banda, influenciados pelo cenário underground em que viviam e entusiasmados com os resultados que Glenn Branca alcançava com sua “guitar-opera”. No início de 1981, Moore voltou a encontrar com Lee Ranaldo em um evento chamado Noise Festival, e lá o convida para ingressar na banda que ele e sua namorada estavam montando. Ranaldo aceitou de imediato e, com a entrada do baterista Richard Edson, nasceu o Sonic Youth.

No verão de 1981, a banda começou a participar de vários festivais no circuito alternativo local, contando com a tecladista Ann DeMarinus. Ann não ficou muito tempo, e não chegou nem a participar das gravações do primeiro trabalho da banda, um EP autointitulado lançado em 1982. O disco saiu pela gravadora de Glenn Branca, a Neutral Records, e é uma pequena amostra do que viria a se tornar o som característico do Sonic Youth, com suas bem dosadas porções de experimentalismo e melodia.

No início de 1983, o baterista Richard Edson deixou a banda para seguir a carreira de artista de cinema — posteriormente, ele viria a participar de algumas produções americanas de sucesso como “Stranger Than Paradise”, de Jim Jarmush, “Do The Right Thing”, de Spike Lee, “Platoon”, de Oliver Stone, e “Good Morning Vietnam”, de Barry Levinson. Para o seu lugar foi chamado Bob Bert, e foi com esse line-up que o Sonic Youth grava seu primeiro LP, Confusion is Sex, ainda em 1983. Neste disco, lançado novamente pela Neutral Records, a banda continuou investindo no som alternativo em sintonia com o que acontecia então em Nova York, livre de qualquer rótulo muito específico, mas nota-se uma influência maior de hardcore nas músicas, com riffs e bases de guitarras mais pesadas e agressivas. Inclusive, está lá o cover de I Wanna be Your Dog, do Stooges. E foi assim, com as influências do punk rock aliadas as experimentações e sonoridades mais alternativas, que o Sonic Youth começa a delinear seu estilo. As letras escritas por Moore e Gordon falam de morte, caos urbano, anarquia, relacionamentos, preconceitos, etc. Ainda em 1983, a banda excursionou pela Europa e por lá, através do selo alemão Zensor, lançaram o EP Kill Yr Idols.

O Sonic Youth estava aos poucos ganhando notoriedade e nesse ano lançou pela Ecstatic Peace um cassete chamado Sonic Death: Sonic Youth Live, com músicas tiradas de shows. No ano seguinte, a banda deixou a Neutral depois de alguns atritos causados por questões financeiras, e assina com a Homestead para a distribuição de seus discos no EUA e com a inglesa Blast First Records, selo criado por Paul Smith, um dos donos da Doublevision Records. Esta última já tinha tido um contato com a banda, mas não havia gostado muito dos trabalhos lançados até então e por isso não os contratou, mas Smith viu potencial em Moore e cia., e criou a Blast First justamente para lançar os discos do grupo na Europa.

Em 1985, ano do casamento de Kim e Thurston, foi lançado Bad Moon Rising. Apesar de continuar trabalhando primordialmente com suas influências fora do grande circuito comercial (a faixa Death Valley ‘69 trouxe a participação de Lydia Lunch, vocalista do Teenage Jesus & the Jerks, um dos expoentes da No Wave), a banda não soava totalmente inacessível e direcionada apenas para um público muito restrito; as estruturas musicais e melodias eram mais acessíveis e elaboradas. Essa bem entrosada mistura de tendências fazia do Sonic Youth uma banda muito promissora, não apenas no circuito alternativo, mas com potencial de atingir também um público maior e menos específico.

Bad Moon Rising fez relativamente bastante sucesso, e a banda acabou recebendo várias propostas de outros selos que queriam tê-los em seu cast. O Sonic Youth acabou assinando então com a SST, a mesma que bancava algumas bandas já consagradas do cenário alternativo como o Husker Du, o Minutemen e o Black Flag. O primeiro disco pela SST foi lançado em 1986 e se chama Evol, já contando com aquele que viria a ser seu baterista definitivo, Steve Shelley. Nele, a influência punk mais agressiva foi deixada um pouco de lado, e a banda utilizou melodias e arranjos mais convencionais, mas sem deixar de lado as experimentações e distorções que já eram a marca registrada do Sonic Youth. O disco teve uma distribuição bem melhor que os trabalhos anteriores, e a banda deixou de ser apenas mais um nome promissor vindo do underground.

Aproveitando o bom momento criativo, o Sonic Youth criou um projeto paralelo chamado Ciccone Youth (uma referência à cultura pop via Madonna, cujo sobrenome é Ciccone), que conta ainda com o baixista Mike Watt em seu line-up. Através deste pseudônimo, o grupo lançou um EP autointitulado pela New Alliance Records. Para fechar o ano de 1986, foi gravada a trilha-sonora do filme Made in USA, que só viria a ser lançado anos depois, em 1995.

O amadurecimento musical e o reconhecimento por parte da mídia continuaram com o disco Sister, lançado em 1987. A revista Rolling Stone se tornou uma das grandes fãs da banda, publicando resenhas bastante positivos dos seus álbuns. Mas o Sonic Youth não se deixou levar por tudo isso, e continuou com a mesma postura diante do sucesso que gradativamente foi chegando. Sister foi o último álbum lançado via SST: a banda deixaria o selo logo depois, pelo mesmo motivo que ocasionou sua rescisão com a Neutral, ou seja, conflitos de ordem financeira.

Sem abandonar as sonoridades alternativas e experimentações em geral, o grupo seguiu fazendo shows incendiários pelos EUA e em outros países, e em 1988 lança seu quinto álbum de estúdio, o aclamado Daydream Nation, pela Enigma Records (selo associado à EMI). Para muitos é o melhor disco do Sonic Youth, onde a banda encontrou o equilíbrio perfeito entre o experimentalismo e a melodia. Canções como Silver Rocket e Teenage Riot fizeram a banda ser definitivamente reconhecida, e figurar no topo de muitas listas de melhores discos do ano — NME e Melody Maker entre elas. Se o sucesso comercial não era estrondoso, o de crítica era bastante significativo. Também em 1988 é lançado o EP Master-Dik.

Ainda em 1988, saiu um novo trabalho do Ciccone Youth, o LP The Whitey Album. Trata-se de um álbum conceitual-irônico acerca de toda uma cultura musical, que vai de referências ao pop (covers de Madonna e Robert Plamer) à musica contemporânea erudita (há uma homenagem à composição 4:22, de John Cage, através da faixa Silence). Em 1990, depois de trocar de selo novamente (a nova casa era a DGC Records, propriedade de David Geffen), a banda lançou o disco Goo, um trabalho um pouco mais acessível do que seus antecessores, e novamente muito bem recebido. O álbum, produzido com liberdade de criação total garantida pelo próprio David Geffen, teve uma distribuição bem mais profissional e ampla do que qualquer um dos selos anteriores da banda poderiam providenciar. Para aumentar ainda mais a repercussão, a banda participou de uma turnê ao lado de Neil Young, que estava divulgando seu Ragged Glory. Ao mesmo tempo, em shows menores, o Sonic Youth aproveitava para ajudar bandas do underground americano, como por exemplo o Mudhoney, o Pavement e o Nirvana (que seria contratado por David Geffen no ano seguinte, por indicação de Moore). Como já se podia perceber, era o início da escalada do rock alternativo americano rumo ao mainstream.

No início de 1992, a banda voltou aos estúdios para a gravação de mais um disco, dessa vez contando com a ajuda de um renomado produtor, Butch Vig. O resultado foi mais um disco altamente celebrado, Dirty, que pode ser visto como o trabalho que sacramentou de vez o nome do Sonic Youth como um dos grandes da música contemporânea. E o sucesso comercial também já era mais significativo, certamente auxiliado pela alta rotação dos vídeos de Youth Against Fascism e Sugar Kane na MTV. E apesar da amenizada nas microfonias e distorções ocorrida nestes dois últimos discos, elas ainda estão lá, como parte fundamental da personalidade musical da banda, que agora investia mais na melodia e na produção de seus discos.

O Sonic Youth voltou a a trabalhar com Butch Vig no disco Experimental Jet Set, Trash and No Star, lançado em 1994. O álbum chegou a alcançar a 34ª posição na lista de mais vendidos nos EUA e a 10ª posição na Inglaterra, ainda no embalo da aclamação dos lançamentos anteriores, mas aos poucos foi perdendo o fôlego e despencou das listas citadas, não chegando a igualar o relativo sucesso comercial de Dirty. E na verdade não poderia ser diferente, uma vez que neste novo trabalho o Sonic Youth voltou a dar mais destaque às experimentações e arranjos pouco convencionais, deixando um pouco de lado a fórmula equilibrada dos discos anteriores. Ainda em 1994, o grupo resolveu tirar férias devido à gravidez de Gordon. E, enquanto esperava o nascimento de seu primeiro filho, Moore gravou seu primeiro disco solo, lançado em 1995 pela própria DGC sob o título Psychic Hearts.

De volta aos palcos em 1995, a banda foi a headliner do festival alternativo Lollapalooza, e logo depois lançou mais um disco de estúdio, Washing Machine. O disco recebeu boas críticas por parte da imprensa e sua cotação junto ao público também foi maior, em comparação ao trabalho anterior. É neste disco que está um dos hinos do Sonic Youth, The Diamond Sea.

Em 1997, o Sonic Youth inaugurou em Nova York um selo próprio chamado Sonic Youth Recordings (SYR). Através desse selo, a banda encontrou um canal mais apropriado para lançar discos mais experimentais e instrumentais, frequentemente promovendo parcerias com músicos de outros estilos, sem se preocupar com a aceitação por parte do público e da mídia. Neste mesmo ano, foram lançados os dois primeiros volumes, SYR1: Anagrama e SYR2: Slaapkamers Met Slagroom. E, na condição de uma das bandas mais produtivas que se tem notícia, ainda em 1997 a banda começou a preparar um novo disco para ser lançado pela DGC. O resultado, A Thousand Leaves, foi lançado no ano seguinte, repetindo novamente as boas críticas e o sucesso comercial moderado do álbum anterior. No tracklist, uma mistura de canções mais acessíveis e radiofônicas (lideradas pelo hit Sunday) e outras de cunho mais experimental (como a faixa de abertura Contre le sexisme).

Na metade de 1999 o grupo voltou aos estúdios, desta vez ao lado do produtor Jim O’Rourke, para a gravação de um novo trabalho a ser lançado pela DGC. Apenas em fevereiro de 2000 o disco ficou pronto, tendo sido lançado então em maio, sob o título NYC Ghosts and Flowers. Trata-se de um disco mais experimental (talvez inspirado pela série SYR, que a essa altura já tinha quatro volumes lançados) e menos acessível, com um elaborado trabalho gráfico baseado em fotos de Nova Iorque tiradas por Lee Ranaldo e desenhos de Kim Gordon, além de trazer na capa um desenho do poeta beat William S. Burroughs. 2000 também foi o ano da primeira passagem da banda pelo Brasil, para participar do Free Jazz Festival. E para fechar, mais um disco da série SYR, o quinto, foi lançado.

Com Jim O’Rourke oficialmente integrado a banda e responsável por uma terceira guitarra, além de baixo e sintetizadores ocasionais, o Sonic Youth lançou em 2002 Murray Street, festejado por muitos como a volta à sonoridade que os consagrou. Da crítica, vieram os elogios mais entusiasmados desde Dirty, lançado 10 anos antes. O álbum possui algumas referências ao estado de medo e desconcerto americano pós-atentados terroristas que derrubaram o World Trade Center, em 2001 — na ocasião, a banda teve que suspender a gravação do álbum devido à tragédia, ocorrida a poucas quadras de seu estúdio.

Em 2003, o grupo começou a planejar o lançamento de edições especiais dos discos de seu catálogo. O primeiro a ser relançado é Dirty, que veio acompanhado de um disco bônus de 16 faixas.

Em 2004, foi lançado Sonic Nurse, que, de acordo com a banda, fechava uma trilogia iniciada com os dois álbuns anteriores. O trabalho foi novamente bem recebido pelos fãs e pela crítica, funcionando quase que como uma continuação natural de Murray Street. Logo depois o Sonic Youth entrou em turnê. Em 2005 eles passaram inclusive pelo Brasil, onde participam do Claro Que É Rock ao lado de Stooges, Flaming Lips, NIN e Fantômas. Neste mesmo ano, foi a vez de Goo ganhar uma reedição especial, e tivemos também o sexto volume da série SYR.

E os lançamentos (e relançamentos) de discos não param: demonstrando um entusiasmo de banda iniciante, o Sonic Youth, tão logo finalizou a turnê de divulgação de seu último álbum, já retomou os trabalhos em seu estúdio para o lançamento de um novo disco. Não contando mais com Jim O’Rourke, que decidiu se concentrar em outras atividades particulares, o veterano grupo nova-iorquino lançou em junho de 2006 Rather Ripped, seu décimo quarto LP. Dessa vez, a banda soltou um disco de canções mais diretas e melodiosas, muito bem recebido pela crítica e pelos fãs. No mesmo ano, foram lançadas reedições especiais de Psychic Hearts (o debut solo de Thurston), The Whitey Album (do projeto paralelo Ciccone Youth) e do EP de estreia da banda, de 1982, além da coletânea de B-sides The Destroyed Room: B-sides and Rarities.

Já 2007 foi um ano mais sossegado para a banda. Houve o lançamento do terceiro disco solo de Thurston Moore, Trees Outside the Academy, e uma nova reedição especial, desta vez para o clássico Daydream Nation. No ano seguinte saíram dois novos volumes da série SYR, além de uma coletânea chamada Hits Are for Squares, lançada em uma parceria inusitada com a Starbucks, famosa rede de cafeterias americana. Hits Are for Squares traz faixas escolhidas por gente como Eddie Vedder, Flea, Chloe Sevigny e Gus Van Sant, além de uma canção inédita. Por fim, mais um relançamento: o EP Master-Dik, lançado originalmente 20 anos antes. Já em 2009 foi lançado The Eternal, o primeiro disco pela Matador Records, com quem a banda acertou em 2008, após o fim do seu compromisso com a DGC. The Eternal foi bastante elogiado pela crítica, que celebrou as três décadas da carreira do Sonic Youth, regularmente pontuada com lançamentos de ótimos discos.

Mas em 2011, vem a notícia: Thurston Moore e Kim Gordon se separam, e não muito tempo depois, é anunciado que o Sonic Youth entra num período de hiato. O futuro passa a ser incerto, mas o presente indica que a banda está cuidando de seu arquivo, com o agendamento do lançamento do disco ao vivo Smart Bar – Chicago 1985 para novembro de 2012.

Última atualização

12/11/2012

Autores

Ver todos os créditos