Nirvana
Biografia
O Nirvana foi uma das bandas mais importantes da história do rock ‘n’ roll, tendo contribuído de forma direta para a redefinição do gênero ocorrido no fim do milênio passado. Sua carreira meteórica e seu hoje mitológico líder, Kurt Cobain, são parte importante da história da música recente, e continuam ainda hoje despertando discussões e adoração, bem como seu reduzido — mas fundamental — legado continua influenciando e sendo reverenciado por fãs e artistas ao redor do globo. A vida de Kurt e o final trágico dessa história contribuem também para tornar o Nirvana um nome que estará sempre em um patamar acima, no panteão dos inesquecíveis. E não se trata apenas de confusões e sensacionalismo. O Nirvana uniu boa música e carreira conturbada em combinação explosiva, em uma era onde a divulgação (e exploração) de bandas e artistas começava a ter escala mundial.
Kurt Donald Cobain nasceu em 20 de fevereiro de 1967, em Aberdeen, aproximadamente 220 quilômetros ao sul de Seattle, no estado americano de Washington. Devido aos constantes problemas entre seus pais (um mecânico e uma secretária, que vieram a se separar definitivamente quando ele tinha 7 anos), ele morou em vários lugares diferentes, e desde cedo mostrou-se um garoto muito irriquieto e com problemas de saúde que lhe obrigavam a tomar sedativos e outros remédios para acalmar sua hiperatividade e fazê-lo concentrar-se na escola. Mas os esforços quanto aos seus estudos foram em vão, e logo ele se desligou da vida escolar. Passava grande parte de seu tempo sozinho, ouvindo música, pintando e escrevendo em seus diários, na maioria das vezes na casa de outros parentes ou mesmo de pais de seus amigos, que aceitavam cuidar do garoto-problema. Sua conturbada infância seria refletida anos mais tarde em várias músicas que ele compôs para o Nirvana. Assim, ainda cedo, ele teve contato e se apaixonou pelo rock ‘n’ roll, e ouvia bandas como Beatles, Monkees, Clash, Kiss, Black Sabbath, Sex Pistols e Led Zeppelin. Aos 14 anos ganhou uma guitarra de aniversário, e ficava cada vez mais claro que sua vida seria voltada à música.
Kurt foi crescendo e em sua adolescência acabou envolvendo-se com o cenário musical underground da região, onde formou várias amizades e chegou a trabalhar nos bastidores de algumas bandas. Dentre elas estava o Melvins, um dos mais importantes nomes da região, e que serviu de inspiração para grande parte das bandas que mais tarde fariam o cenário de Seattle se tornar conhecido mundialmente. O som feito pelo grupo era mais ou menos aquilo que veríamos mais tarde virar referência em Seattle: algo entre o punk e o heavy metal. Kurt chegou a formar uma banda, chamada Fecal Matter, com o baixista do Melvins, Dale Crover, e gravar precariamente algum material.
Mas foi Buzz Osbourne, vocalista do Melvins, quem lhe apresentou em 1985 o seu futuro melhor amigo, Krist Novoselic. Foi também Buzz quem lhe apresentou outras bandas que seriam mais tarde a influência principal do Nirvana, como Stooges, Black Flag e Flipper. Kurt começou a adquirir consciência dos princípios do punk rock e também a renegar e esconder seu passado de fã de bandas mainstream, conflito esse que perduraria e influenciaria boa parte de sua vida.
Meses depois de se conhecerem, Kurt e Krist mudaram-se para Olympia, atraídos pelo cenário musical dessa cidade. Lá se tornam figurinhas fáceis nos shows e bares alternativos. Eles formaram sua primeira banda em 1986, a Stiff Woodies. Cobain ficou com a bateria e Krist com o baixo, e os outros instrumentos ficavam com vários amigos diferentes, que entravam da banda para logo depois sair. Da mesma maneira que mudavam as formações, mudava o nome da banda: chamaram-se também Skid Row, Pen Cap Chew, Ted Ed Fred e Sellouts. Durante essas mudanças, as posições entre os membros também eram trocadas, e, no final de 1986, a banda estava com Cobain cantando e tocando guitarra, Krist ainda no baixo e Aaron Burkhart na bateria.
O ano de 1986 também marcou a fundação da Sub Pop, gravadora criada pelos amigos Jonathan Poneman e Bruce Pavitt. Este último viera para Seattle ao lado de Kim Thayil, que mais tarde formaria o Soundgarden. O objetivo do selo era ajudar bandas independentes em início de carreira, que pipocavam aos montes nesta região. A Sub Pop seria a responsável por mostrar o Nirvana ao mundo pouco tempo depois.
Podemos dizer que o ano de 1987 marcou o início da meteórica carreira do Nirvana. Início não muito diferente de todas as bandas independentes: shows e pequenas apresentações em bares, festas e universidades locais. O som produzido por eles já se caracterizava por ser uma mistura contagiante da agressividade e rebeldia do punk rock com o peso e energia do metal/hard rock. Já era notável também o talento de Kurt Cobain, líder e principal compositor do Nirvana. Aos poucos a banda ia fazendo seu nome no circuito underground da região. Kurt também entrava cada vez mais a fundo em um mundo pessoal povoado por demônios como as drogas, mágoas familiares e seu problema estomacal crônico, para o qual ele nunca acharia uma solução.
Em 1988, finalmente o nome Nirvana foi designado para a banda. Concomitamentemente ocorreu a saída de Aaron Burkhart, que passou as baquetas para Dale Crover, baterista do Melvins. Este, no mesmo ano, seria substituído por Chad Channing. E a banda seguia atraindo cada vez mais atenção, à medida em que seus shows iam ficando famosos.
Foi através desse princípio de fama que o produtor Jack Endino tomou conhecimento do grupo. Depois de encontrá-los e ficarem amigos, ele ajudou na produção de algumas fitas demos, com as quais convenceu seu amigo Jonathan Poneman, da Sub Pop, a firmar um contrato com o Nirvana. O primeiro fruto desse contrato foi um vinil lançado em novembro de 1988 através do famoso “The Singles Club”, com as música Love Buzz (cover de uma banda holandesa chamada Socking Blues) e Big Chesse. O lançamento final desse single foi marcado por alguns problemas — era originalmente para ter sido lançado em junho —, devido às dificuldades financeiras da gravadora. Apesar de fazer um excepcional trabalho de divulgação de várias excelentes bandas que não encontravam apoio nas grandes gravadoras, a Sub Pop continuava a ser um pequeno selo cujos escassos recursos freqüentemente atrapalhavam os dignos propósitos de seus fundadores. E acabou não sendo diferente com o Nirvana, que não só viu o atraso do lançamento de Love Buzz, como também teve que aceitar um aumento no preço final do material, para tentar evitar uma possível perda do dinheiro investido pela gravadora.
Felizmente, não foi o que aconteceu: o single vendeu bem (além das 1.000 cópias originais, foi necessário a confecção de 200 adicionais), principalmente devido ao fato de o Nirvana já possuir um pequeno público, nascido das famosas e incendiárias apresentações da banda em Olympia e Seattle.
Empolgada com o retorno, a Sub Pop resolveu arriscar e investir em um álbum para o trio, além de promover um melhor esquema de divulgação para eles. Com o dinheiro arrecadado com o “The Singles Club” (que, logo após o Nirvana, lançou material do Mudhoney, Flaming Lips, Afghan Whigs e Tad), a Sub Pop pagou a estadia em Seattle de um famoso editor inglês da revista New Music Express. O objetivo era fazê-lo conhecer a fervilhante cena musical da região. Não deu outra: o influente editor, chamado Everett True, ficou impressionado com bandas como Mudhoney, Nirvana e Soundgarden, e as fez virar notícia na Europa também. O embrião do sucesso do “grunge”, termo que vinha sendo utilizado (reza a lenda, cunhado por Mark Arm) para se referir à cena musical do nordeste dos EUA, começou a se desenvolver aí. As bandas de Seattle passaram a fazer turnês maiores e começaram a ver seus nomes escritos e reconhecidos em várias revistas e publicações dos EUA e da Europa.
No fim de 1988 o Nirvana entrou em estúdio para gravar seu primeiro LP. Sua produção demorou aproximadamente dois meses, a um custo final de exatos 606,17 dólares. Finalmente, o álbum intitulado Bleach foi lançado em junho de 1989 — a Sub Pop ainda sofria com os velhos problemas financeiros que atrasaram a chegada do disco às lojas, apesar de a situação estar melhorando sensivelmente. O disco vendeu cerca de 35.000 cópias (número anterior ao mega-estrelato do Nirvana). Trata-se de um pequeno clássico: estão lá as melodias, os riffs simples e a energia punk, tudo ainda bastante tosco e primal, naturalmente. Na ficha técnica do álbum, consta a presença na banda do guitarrista Jason Everman, que na verdade não participou das gravações — seu nome nos créditos foi a maneira da banda lhe agradecer pela ajuda financeira com os custos da gravação do disco. Posteriormente, ele tocaria em alguns shows e também participaria de algumas sessões de estúdio, como aquela que rendeu a contribuição do Nirvana para um tributo ao Kiss.
Durante a turnê de divulgação do álbum, o fantasma das mudanças no line-up voltaram a assombrar a banda. Chad Channing saiu em maio de 1990 alegando diferenças musicais com os outros companheiros, e para seu lugar inicialmente foi chamado novamente Dale Crover, do Melvins. Mas este também não ficou muito tempo, e logo depois quem assumiu as baquetas foi Dan Peters, do Mudhoney. Na verdade, esses bateristas estavam apenas quebrando um galho para o Nirvana, enquanto não achavam um baterista definitivo. Foi com Peters na bateria que o Nirvana grava, ainda em 1990, o single Sliver, que além da faixa-título possuía também a música Dive.
Gravaram também um EP chamado Blew ao lado de Butch Vig (baterista do Garbage e produtor de outros clássicos do rock alternativo, como o disco Siamese Dream do Smashing Pumpkins e Dirty do Sonic Youth). Blew saiu em uma edição limitada, o que faz dele uma raridade hoje em dia. E, em outubro de 1990, eles finalmente acharam um baterista definitivo: Dave Grohl, que veio da banda de hardcore Scream.
O Nirvana continuava a sair do anonimato cada vez mais rapidamente, fazendo inclusive uma turnê pela Europa. Depois de finalmente resolver negociar com as várias grandes gravadoras que assediavam a banda, eles foram aconselhados pelos amigos do Sonic Youth e resolveram assinar contrato com a DGC (uma divisão da Geffen Records) em abril de 1991. A Sub Pop também ganhou com a mudança; afinal, o pequeno selo arrecadou um bom dinheiro pela rescisão de contrato com o Nirvana, devidamente pago pela DGC.
De casa nova, a banda entra em estúdio ainda em 1991 para gravar seu segundo álbum. Novamente com a produção de Butch Vig, o Nirvana faz diversas sessões de estúdio, gravando e regravando várias vezes o material a ser colocado em seu novo LP, cuja idéia inicial de Kurt era intitular Sheep. A banda trabalhava com empenho mas às vezes ficava nas mãos do humor e manias de Kurt, cujos problemas químicos aumentavam à medida em que aumentava a pressão em cima de sua carreira. Antes do lançamento de seu novo trabalho, a banda participou do famoso Reading Festival, na Inglaterra, ao lado de nomes de peso como Iggy Pop e Sonic Youth, sedimentando ainda mais sua fama. O resultado das sessões no famoso estúdio Sound City, na California, foi lançado finalmente em 24 de setembro de 1991, sob o título Nevermind. O disco conta com ótima produção (mixagem final de Andy Wallace), que destaca bem as excelentes melodias criadas por Cobain e deixa o barulho produzido pelo grupo mais acessível ao grande público. Fora isso, Nevermind é um clássico do início ao fim, citado constantemente como um dos melhores discos de rock de todos tempos. Poucos discos na história tiveram tantos hits reunidos lado a lado: Come as You Are, Smells Like Teen Spirit e Lithium foram tocadas à exaustão.
O objetivo inicial da DGC era conseguir vender todas as aproximadamente 100.000 cópias prensadas, mas hoje Nevermind já ultrapassou o impressionante número de 10 milhões de cópias vendidas, e continua a vender regularmente mesmo depois de mais de uma década de seu lançamento. O disco foi um fenômeno de vendas logo de início, e ficou durante muito tempo nas paradas de sucesso (tendo atingido a primeira posição nas paradas americanas em fevereiro do ano seguinte). O Nirvana teve seu nome levado à posição de grande sensação do rock mundial, assim como toda geração de bandas de Seattle teve seus nomes reconhecidos e expostos. A MTV descobriu a banda e tudo isso foi elevado à décima potência. Kurt Cobain se transformou em ícone pop e o porta-voz da tal geração X.
Aí começaram os problemas. Kurt mostrou imediatamente ser incapaz de suportar e ser aquilo em que ele se transformou, ou pelo menos, passou a agir dessa forma. Suas contradições aumentaram, e, apesar de sempre ter almejado alcançar sucesso no mundo do rock ‘n’ roll, o que se vê é o início de uma espiral de auto-destruição. Enquanto ele vislumbrava em seus shows o público adolescente típico da MTV, parecia sentir falta do respeito por parte das pessoas que ele tinha em alta consideração, e temia estar perdendo sua suposta integridade punk. Cada vez mais ficava evidente sua tendência à depressão, sua fraqueza ao lidar com drogas e também seus impulsos suicidas começavam a florescer. Ainda assim, nada atrapalhou a incrível ascensão do Nirvana, e, por volta de 1992, a banda possuía prestígio e sucesso poucas vezes antes vistos na história do show-business.
A rotina alucinante do Nirvana continuava: shows lotados, entrevistas, matérias em revistas, em jornais e em programas de televisão eram o dia-a-dia do trio. A banda não tinha tempo para descansar e botar as idéias no lugar, uma vez que tudo aconteceu muito rápido. Muitas vezes faziam shows em grandes lugares (no Hollywood Rock de 1993, no Brasil, eles tocaram para 35.000 pessoas), mesmo insatisfeitos com isso, pois preferiam os pequenos shows e concertos que faziam no início da carreira. “Em um pequeno ginásio, nossa energia flui melhor”, comentou Dave Grohl, na ocasião dos shows no Brasil. Kurt mostrava-se inseguro com os rumos que sua carreira estava tomando, mas não conseguia se desvincular de tudo que considerava nocivo. Algumas apresentações na televisão americana ficaram famosas, como a no Saturday Night Live, na qual Cobain e Novoselic se beijaram após a performance da banda. Apareceram também no Headbanger’s Ball, da MTV, e em um programa da BBC chamado Top of the Pops, onde eles dublaram Smells Like Teen Spirit da maneira mais irônica possível.
Ao menos sua imagem a banda tratou de deixar intacta, sempre usando as roupas rasgadas e velhas que usavam nos shows nos buracos do início de carreira, além de protagonizar as já costumeiras sessões de quebra-quebra de intrumentos (que também aconteciam sem cerimônia nos programas de TV) e desaforos como a masturbação de Kurt diante das câmeras do Hollywood Rock. Fora da música, seu romance com a vocalista do Hole, Courtney Love, que ele conhecera em um clube no qual o Nirvana se apresentou, rendia fofocas e matérias para os inúmeros tablóides sensacionalistas, que não cansavam de noticiar brigas e quaisquer outros acontecimentos relacionados à dupla.
Kurt e Courtney se casaram em uma cerimônia realizada no Havaí em fevereiro de 1992, e anunciaram que estavam esperando uma filha para agosto. Na imprensa, surgiram boatos de que o casal continuava a consumir heroína e outras drogas regularmente, mesmo estando ela grávida. Eles negavam tudo veementemente, apesar dos problemas de saúde de Cobain ficarem cada vez mais explícitos, inclusive obrigando o Nirvana a cancelar alguns shows vez ou outra. Isso fez com que algumas instituições de proteção à crianças entrassem com um processo na justiça de Los Angeles, tentando tirar a futura guarda da criança do casal, mas sem obter sucesso. Frances Bean Cobain nasceu com saúde em 18 de agosto de 1992. Um pouco antes disso, em junho, Kurt visitou um hospital em Belfast depois de um show na Europa, para tentar tratar de seu problema no estômago.
Com uma família para cuidar, Kurt pareceu acalmar um pouco, tentando suavizar a rotina de rock-star. O Nirvana passou a escolher melhor os shows em que se apresentaria e, passada a euforia inicial, eles tentaram virar um grupo de rock normal. Devido à impossibilidade de lançar material inédito ainda em 1992, decidiram lançar uma coletânea de antigas gravações da banda, com músicas que só saíram em singles, raridades, demos e lados B, para saciar a grande legião de fãs, ávida por novidades do grupo. Incesticide é um bom álbum, que mostra um Nirvana mais seco e sujo do que em Nevermind. Afinal, a maioria das faixas que lá estão foram produzidas e gravadas no período anterior ao estrelato do grupo. A capa do disco possui um desenho feito por Kurt.
Em 1993, a banda se encontrava com uma quantidade suficiente de novas composições para a gravação de um novo disco. A idéia era fazer um trabalho que retomasse as raízes do grupo, sem facilidades e concessões. Kurt ainda tinha seus problemas de aceitação com a maneira como Nevermind soava, e sentia-se em débito com seu passado. O produtor escolhido para lhes ajudar nesta tarefa foi respeitado Steve Albini e o novo disco foi concluído em duas semanas, durante a primavera americana. Ao mesmo tempo, ficavam fortes os rumores de que Cobain estava tendo uma nova recaída, e seus problemas pessoais voltavam a perturbar a banda. Pouco tempo depois, esses rumores, infelizmente, começaram a se mostrar verdadeiros: Kurt teve uma overdose de heroína no dia 2 de maio e só se salvou devido ao rápido atendimento médico, fato que foi escondido da imprensa durante um longo tempo; em junho, Courtney Love chamou a polícia na casa do casal, pois Kurt supostamente estaria trancado no banheiro com uma de suas armas (armas de fogo eram uma de suas fixações) dizendo que iria se suicidar; ainda em junho, no final do mês, ele foi vítima de uma nova overdose, em um hotel de New York, antes de uma apresentação da banda no Roseland Ballroom. Depois de superar esses acontecimentos, Kurt aceitou se internar em um centro de recuperação, para ver se conseguia se livrar definitivamente das drogas. Mas Kurt não aguentou muito tempo e desistiu antes de terminar o programa.
A despeito de todos esses problemas, In Utero foi lançado em 23 de setembro de 1993. Trata-se de um disco tão brilhante quanto Nevermind, com a diferença de ter sofrido uma enorme expectativa em cima. As temáticas continuam versando sobre as neuroses de Cobain (explícita na capa do disco também), com suporte de um instrumental afiado, dessa vez mais tosco, soando mais real e intricado do que tudo que a banda já havia registrado antes, resultado das gravações realizadas ao vivo e sem overdubs. Consequentemente, o álbum teve menos hits e não fez o mesmo sucesso estrondoso que o antecessor. Kurt aproveitou para espetar desafetos (Rape Me é endereçada à repórter Lynn Hirschberg, da revista “Vanity Fair”, que foi a primeira a questionar se Kurt e Courtney seriam bons pais para a pequena Frances Bean; Serve the Servants cita seu pai), rir dele mesmo (Dumb) e falar sobre seus problemas de saúde (quase todoas as músicas). Apesar da resposta comercial menor, o álbum é o melhor da banda na opinião de muitos fãs.
Muitos boatos surgiram na época dando conta de que a DGC não tinha ficado nem um pouco satisfeita com o que a banda lhe entregou a princípio. Ainda sim, devido ao prestígio do grupo na gravadora, eles conseguiram manter essa idéia inicial, cedendo apenas em remasterizar o disco com o produtor Scott Litt (que já trabalhou com o R.E.M.), que deu uma suave limpada nas faixas, mas, no final das contas, não mudou muita coisa.
A banda partiu para mais uma exaustiva turnê em outubro, contando com a ajuda do guitarrista Pat Smear (ex-Germs). Eles ainda acharam tempo para gravar um show acústico para a MTV, em novembro, um dos últimos grandes momentos da carreira do Nirvana. Cobain, apesar de claramente nervoso, parecia estar no auge de inspiração para cantar e interpretar, obtendo também razoável êxito em não deixar transparecer que seus problemas estavam cada vez mais perto de vencer a batalha. No total foram seis covers: The Man Who Sold the World de David Bowie, Jesus Doesn’t Want me for a Sunbeam do Vaselines, Where Did You Sleep Last Night do Leadbelly, Plateau, Oh, Me e Lake of Fire do Meat Puppets (os irmãos Kirkwood subiram ao palco para colaborar com o Nirvana na execução de suas músicas). Das músicas próprias, o destaque foi a atuação solitária de Kurt em Pennyroyal Tea, que se transformaria em motivo de orgulho até para o próprio Kurt, sempre muito auto-crítico. Ainda pela MTV, a banda gravou um especial de final de ano; final de ano que seria o último vivido por Kurt Cobain.
Continuando na estrada, a banda faz seu último show nos EUA no dia 8 de janeiro de 1994, no Center Arena de Seattle. Depois de um pequeno descanso, no dia 2 de fevereiro eles partiram para uma turnê européia, que pretendia cobrir vários países, dentre eles França, Portugal, Iugoslávia, Alemanha e Itália. Mas depois de um show em Roma, na Itália, a banda decidiu dar um tempo para mais um descanso, uma vez que Kurt não estava aguentando seus compromissos. Juntamente com Courtney, ele decidiu tirar mais umas férias na própria Itália.
Kurt estava cada vez mais fragilizado e doente. No dia 4 de março, Courtney Love achou seu marido inconsciente em seu quarto, no hotel Rome’s Excelsior. Ele acabara de ter uma overdose do tranquilizante Rohypnol misturado com champagne. A partir daí, a situação não seria mais reversível. A banda tentou divulgar que esse acontecimento foi apenas um acidente, mas logo descobriu-se a existência de uma carta de despedida escrita por Kurt, provando assim que sua vontade era mesmo suicidar-se. Amigos, empresários, banda, parentes e fãs mobilizaram-se, pois viram que a situação dessa vez era muito grave. Depois de permanecer em coma por 20 horas (boatos surgiram de que ele havia falecido), Kurt retomou a consciência e foi convencido a voltar para Seattle e ingressar novamente em um centro de recuperação. Era evidente que ele precisava de muito repouso e tempo para se recuperar.
Em Seattle, antes ainda de Kurt ingressar no referido centro, uma outra ocorrência deixou todo mundo ao seu redor alarmado novamente: no dia 18 de março, ele trancou-se em um quarto de sua mansão, novamente com uma arma tirada de sua coleção e ameaçando matar-se. Mais uma vez o problema foi contornado, e finalmente no dia 30 do mesmo mês ele deu entrada no Exodus Recovery Center, em Los Angeles, para iniciar um tratamento intensivo visando sua recuperação. Os médicos desde cedo alertaram que não seria uma tarefa fácil, tendo em vista que sua dependência estava muito violenta e seus problemas no estômago mantinham seu organismo muito debilitado. Mas a situação voltou a ficar complicada mais rápido do que todos esperavam e, dessa vez, de maneira definitiva: aproveitando uma falha de segurança do Exodus Recovery Center, Kurt escapou no dia seguinte à sua entrada e a partir daí não mais foi visto. Diz-se que ele passou de três a quatro dias perambulando pelas ruas da cidade tentando achar drogas para consumir, como se fosse um mendigo. Ele teria passado por sua casa também, e, mesmo ela sendo constantemente vigiada por familiares e servindo de moradia para o babá de Frances e sua namorada (que dizem ter ouvido barulhos de alguém vagando por lá de noite), Kurt não foi visto por ninguém.
No dia 8 de abril de 1994, um eletricista contratado por Courtney Love foi à mansão dos Cobains para instalar um sistema de alarme. Andando pelas estruturas anexas da casa, ele tropeçou em algo perto de uma mesa. Ao acender a luz, percebeu que havia esbarrado em um corpo estirado ao chão, com a cabeça esfacelada por um tiro disparado pela espingarda que estava caída ao seu lado. Em cima da mesa, uma carta. De acordo com a perícia médica que logo foi chamada ao local, Kurt Cobain se suicidara quatro dias antes, aproximadamente no dia 4 de abril, mesmo dia em que sua mãe foi a delegacia declarar seu filho como desaparecido. Em seu organismo havia heroína o suficiente para matá-lo sem que ele necessitasse de um tiro de uma arma de calibre 38 na cabeça: era apenas uma questão de minutos.
Kurt Cobain foi alçado a posições ainda mais altas do que ele já gozava entre seus fãs. Hoje ele repousa ao lado de nomes ilustres nomes como Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin. Sua morte foi o primeiro passo para o fim da chamada era “grunge”. Rapidamente surgiram teorias absurdas como as que garantem que a morte de Cobain fora arquitetada e executada por Courtney Love ou até pelo FBI.
Dave Grohl hoje em dia é o guitarrista e vocalista do Foo Fighters, que chegou a contar também com o guitarrista Pat Smear, além de participar intensamente de outros projetos, e fazendo também participações em inúmeros discos de outras bandas e artistas. Dave não costuma falar muito sobre Kurt Cobain, com quem chegou a morar durante um breve período logo após sua entrada na banda. Já Krist Novoselic ficou mais tempo longe da música, tempo que aproveitou para participar de várias causas de cunho social, voltando a se juntar a uma banda somente em 1997, o Sweet 75. Este projeto não deu muito certo, assim como o Eyes Adriftm que veio a seguir e também terminou logo após o lançamento do primeiro disco. Atualmente, Krist faz parte da reunião do Flipper, um dos grupo de punk rock que nos anos 80 e 90 influenciou o Nirvana, e que tinha encerrado suas atividades em 1995.
Finada a banda, iniciaram-se os lançamentos póstumos: no final de 1994 foi lançado o disco Unplugged in New York, que contém a histórica apresentação do Nirvana em formato acústico para a MTV. A produção do álbum ficou a cargo de Scott Litt. Em 1996 foi a vez de The Muddy Banks of the Wishkah, que possui diversas canções de diferentes épocas da banda compiladas a partir de gravações de shows. Especulações sobre o material inédito que banda deixou gravado começam a surgir, mas as visões de Dave e Krist divergiam da de Courtney Love. Assim começou uma longa batalha judicial sobre o espólio da banda. Com o advento da internet, grande parte deste material espalhou-se em forma de bootlegs em mp3, mas o lançamento em formatos oficiais só viria a acontecer a partir de 2002, quando as partes entraram em acordo. Em novembro desse mesmo ano foi lançada a coletânea Nirvana contendo os maiores sucessos da banda e a inédita You Know You’re Right, gravada poucos meses antes da morte de Kurt Cobain. No final de 2004 foi lançado o esperado box set With the Lights Out, que traz três CDs e um DVD recheado de faixas demos, b-sides e gravações ao vivo. Em 2005 saiu Sliver, nova coletânea, dessa vez baseada somente no material do box set lançado no ano anterior (daí seu sub-título: The Best of the Box).
Além dos lançamentos musicais, Kurt Cobain inspirou livros como “Journals”, baseado em seus diários, e “Heavier Than Heaven” (que ganhou edição nacional com o subtítulo “Mais pesado do que o céu”), excelente e completa biografia de Kurt Cobain escrita pelo jornalista Charles R. Cross. Também no cinema Kurt Cobain foi retratado: o filme “Last Days”, de Gus Van Sant, faz uma espécie de simulação em formato semi-documental do que teriam sido os últimos dias do líder do Nirvana.
Mais recente, em 2006, tivemos o lançamento da versão em DVD do documentário Live! Tonight! Sold Out!!, que havia sido lançado originalmente em VHS em 1994. Em 2007 saiu também uma versão em DVD para o MTV Unplugged in New York, contendo todas as músicas que foram tocadas pela banda na ocasião, além de material extra compilado a partir de entrevistas e um documentário produzido pela MTV.
Última atualização
30/11/2008

