Modest Mouse
Biografia
Um tom sobrenatural perspassa todo o trabalho do Modest Mouse. De longe, ele parece ser composto de músicas simples e diretas. De perto, as mesmas músicas revelam ter camadas e camadas de sons, professando uma ciência mística e intricada. Tal é a história da banda: simples e direta — a não ser que se comece a remexer em rumores e fichas policiais.
O embrião do Modest Mouse criou-se em 1987, quando Isaac Brock, Eric Judy e Jeremiah Green, companheiros de escola, tiravam um som em Issaquah, no estado de Washington, Estados Unidos. O que os garotos consideravam seu estúdio era uma sala improvisada, perto da casa da mãe de Brock. Nem mesmo uma breve mudança de Judy para outro estado impediu que a turma continuasse trocando idéias para músicas. Os rapazes começaram a levar tão a sério que até decidiram batizar a colaboração. Contam os mitos contemporâneos que o nome provisório de Modest Mouse foi inspiração de Brock, depois de ler no colégio o conto The Mark on the Wall, da Virginia Wolf, que descrevia a classe média trabalhadora como “modest mouse-coloured people […]”. Duas décadas depois, além de nem mais se lembrar do que se trata a história, Brock se diz arrependido de ter acabado com um nome tão bonitinho para a sua banda.
E Modest Mouse foi o que a K Records estampou no primeiro lançamento do grupo, o EP Blue Cadet-3, Do You Connect?, de 1994. Desta época também datam as músicas do disco Sad Sappy Sucker, só lançado em 2001, e que deveria ser o disco de estréia da banda.
Logo depois do primeiro EP e do disco engavetado, o Modest Mouse trocou de gravadora. Pela Up Records, lançaram em 1996 o disco This Is A Long Drive For Someone With Nothing To Think About. O produtor do álbum foi Steve Wold, também membro do grupo na época. O disco de estréia já veio com um título-épico, marca registrada da banda (“trabalhamos muito tempo nos títulos dos discos a fim de dar um ar de coerência para a coleção de músicas”, brinca Isaac Brock). E o título rendeu: talvez sugestionada por ele, há a associação corrente do trabalho do Modest Mouse com o termo “música para dirigir”. O EP Interstate 8 veio logo a seguir, coroando o estágio prolífico em lançamentos.
The Lonesome Crowded West, o segundo disco do Modest Mouse, não tardou muito: em 1997 estava nas lojas desbravando a simpatia do público e da crítica. Desde então, a música estilosa do Modest Mouse é cada vez mais marcada pelas letras aos borbotões, com visitas freqüentes aos temas da vida sufocada pela sociedade urbana e da ânsia de explorar lugares inóspitos. Em 1999, a Up lançou Building Nothing Out of Something, uma coletânea de singles e raridades, que incluía praticamente todo o EP Interstate 8.
2000 foi agraciado com a obra-prima do Modest Mouse até os dias atuais, o disco The Moon and Antarctica, lançado pela Epic Records. A música Gravity Rides Everything chegou a ser usada em um comercial da Nissan, em um inesperado (mas, segundo Isaac Brock, necessário) truque financeiro. O disco mais exuberante, o comercial de carro e a mudança para uma gravadora do porte da Epic renderam acusações ao Modest Mouse de terem vendido a alma. Questionada em entrevistas, a banda demonstrou um profundo desgosto contra os princípios morais impostos por alguns fãs às bandas independentes, que dizem que essas não deveriam em circunstância alguma viveram da sua música.
Polêmicas à parte, The Moon and Antarctica é o exemplo máximo das referências à cultura e à ciência pop que tanto pontuam a obra do Modest Mouse. O título já marca o passo: The Moon and Antarctica aparece em um jornal que Deckard lê no filme Blade Runner (a manchete toda diz “Farming the Oceans, the Moon and Antarctica”). As letras seguem o ritmo dado pelo título, abordando metafísica e morte, a fragilidade da existência, a vida em outros planetas, consumismo, o universo e tudo mais. Sem perder o folêgo, acrescente-se. Para usar do mesmo truque e descrever o disco a partir de algumas referências pop e outras mais obscuras, o álbum tem o humor e as preocupações de um Douglas Adams e a maluquice de um Billy Childish.
As sobras de estúdio do The Moon and Antarctica foram lançadas já em 2001 no EP Everywhere & His Nasty Parlour Tricks. Foi nesse ano também que finalmente acabou o ostracismo do disco Sad Sappy Sucker, gravado e esquecido desde 1994. Logo depois, em 2002, o Modest Mouse participou da turnê Unlimited Sunshine, ao lado de nomes como Cake e Flaming Lips.
Após os agitados dois primeiros anos do milênio, Isaac Brock deu um tempo no Modest Mouse para lançar um disco com o seu projeto paralelo, Ugly Casanova. Ainda exaurido, o grupo enfrentou em 2003 a saída do baterista Jeremiah Green. A nota oficial para a imprensa dizia que ele queria mais tempo para o seu projeto paralelo, a banda Vells. No entanto, especula-se que o motivo tenha sido esgotamento nervoso. Dois novos nomes vieram ao socorro do grupo: o baterista Benjamin Weikel e o guitarrista Dann Gallucci. Gallucci, na verdade, já havia colaborado com o Modest Mouse na época do Sad Sappy Sucker, e é figurinha habitual na história da banda.
O ano de 2004 trouxe o disco Good News For People Who Love Bad News, o retorno do baterista Jeremiah Green, e tudo passou a ser como era antes. Benjamin Weikel voltou a tocar exclusivamente com o seu grupo, The Helio Sequence, e Dann Gallucci encerrou mais uma de suas breves colaborações no Modest Mouse. Nos shows, a banda contou então com o guitarrista Hutch Harris.
Good News … acabou ofuscado pelo disco anterior. Afinal, ainda em 2004 uma nova edição de The Moon and Antarctica veio à tona, contando com uma nova produção e algumas faixas ao vivo gravadas para a BBC. Isaac Brock justificou o prematuro relançamento pelo fato de ele não ter ficado satisfeito com a versão original. Ele iria até mesmo remixá-lo por conta própria, com seu próprio dinheiro e tempo, e portanto a proposta da Epic foi mais do que oportuna. O perfeccionismo de Brock parece ter dado certo. O nome do Modest Mouse chegou a ser citado na suprema corte dos Estados Unidos como um exemplo de banda “independente” no caso MGM contra Grokster (2005).
Em 2007, sob produção de Dennis Herring, o disco We Were Dead Before the Ship Even Sank marcou a inclusão de Johnny Marr (The Smiths) no Modest Mouse. We Were Dead …, com seus cantos épicos e muitos barulhos escondidos, parece ter herdado o legado de The Moon and Antarctica, mais do que o disco-interlúdio Good News For People Who Love Bad News. Se as audições menos atentas já entregam a belíssima Missed the Boat, não é impossível imaginar outras pérolas que se revelam ao mergulhar no We Were Dead …. Uma curiosidade são os divertidos vídeo-clipes para essa música, feitos por fãs para um concurso promovido pela banda.
Depois de uma turnê em 2008 abrindo para o REM nos Estados Unidos e Canadá, o Modest Mouse tirou uma folga das estradas e dos estúdios. Em agosto de 2009, eles recolheram as sobras de estúdio e lados-B dos seus dois últimos discos, Good News for People Who Love Bad News e We Were Dead Before the Ship Even Sank, e, mantendo a tradição, lançaram mais um trabalho de título épico: o EP No One’s First, and You’re Next.
Última atualização
31/08/2009

