Manic Street Preachers

Biografia

O Manic Street Preachers foi formado oficialmente por James Dean Bradfield, Nicky “Wire” Jones, Sean Moore e Miles “Flicker” Woodward em Blackwood, no País de Gales, em 1986. Os quatro eram amigos e costumavam jogar futebol juntos — James, inclusive, chegou a ser um jogador promissor: participou da seleção juvenil do País de Gales e quase fez um teste para entrar no Arsenal (um dos maiores times da Inglaterra), mas uma lesão encerrou precocemente suas chances de se tornar jogador profissional.

A ideia de formar uma banda surgiu primeiramente por ocasião das comemorações dos dez anos do Sex Pistols, em 1985. Um ano depois surgiu o Betty Blue, formado por Nicky no baixo, James como vocalista e guitarrista, Sean na bateria e Flicker na outra guitarra. Nos primeiros anos de vida, Richey James Edwards, amigo de faculdade de Nicky, convivia diretamente com a banda, tendo, inclusive, desenhado a capa do primeiro single, Suicide Alley, que foi financiado pela própria banda. Richey atuava como roadie e motorista da banda. Pouco antes do single ser lançado, o grupo, que naquela altura era um trio, devido à saída de Flicker em 1988, alterou o nome para Manic Street Preachers — a explicação para o nome está na história que diz que James costumava gritar no meio da rua, e certa vez alguém que estava passando por perto o chamou de “just another manic street preacher”, algo como “é só mais um maníaco pregador de rua”. A capa do single foi inspirada no primeiro álbum do Clash, o que só servia para confirmar as influências e a sonoridade do grupo naquele momento, um misto de punk e hard rock. “Nós estamos o mais distante possível dos anos 80”, disse anos depois Richey James.

O segundo lançamento do grupo foi um EP de quatro músicas, intitulado New Art Riot, lançado em 1990 e novamente financiado pelo próprio Manics, que já tinha Richey James ocupando oficialmente uma de suas guitarras. O álbum tinha uma evidente influência punk e letras de forte conteúdo político e de crítica social. O EP obteve uma grande repercussão na mídia, embora os comentários fossem particularmente negativos. Eram incontáveis as comparações do Manics com o Sham 69, uma outra banda da época.

Mas o Manics já tinha ganhado a atenção do público, com a reputação de ser um verdadeiro grupo socialista-punk-glam, usando e vendendo camisetas com slogans socialistas de Karl Marx, usando maquiagem no palco e tudo o mais. O visual era um espetáculo à parte, e ajudou na repercussão da banda um manifesto nada modesto: lançar um álbum de estreia duplo que vendesse 16 milhões de cópias, fazer uma turnê mundial e encerrar suas atividades após três shows no estádio de Wembley. Os caras não pensavam pequeno: falavam até em abolir a monarquia no Reino Unido.

Ainda em 1990, a gravadora Heavenly Records assinou com a banda e lançou no começou do ano seguinte o single da épica Motown Junk, um dos clássicos do Manics, e uma das favoritas ao vivo ainda hoje. Em seguida, um novo single, You Love Us, outra grande canção feita em resposta à imprensa que se negava a levar a banda a sério. You Love Us atingiu o nº 62 na parada britânica e impulsionou de vez a carreira da banda.

Depois do sucesso do single, seguiu-se uma turnê por todo o Reino Unido, repleta de incidentes com bebidas e confrontos com seguranças. Nessa turnê ocorreu um fato marcante na carreira da banda e que, por si só, mereceria um capítulo à parte na história do rock. O Manics fez um show em Norwich, que teve pouca presença de público, e entre os presentes estava Steve Lamacq, um jornalista da NME, que com certeza não era fã da banda. Após o show, Richey encontrou-se com Lamacq e os dois conversaram durante alguns minutos. Lamacq era mais um daqueles que questionavam a seriedade e a sinceridade do discurso do Manics e, notadamente, não tinha ficado muito impressionado com o show e tampouco parecia mudar de ideia durante a conversa com Richey. Foi então que, sem aviso algum, Richey pegou uma navalha e cortou o seu próprio braço, formando a expressão “4REAL”. Lamacq, apavorado, chamou uma ambulância. Richey foi transportado ao hospital e levou dezessete pontos.

Depois desse incidente, a Sony/Columbia assinou com a banda e o próximo single do Manics, Stay Beautiful, outro clássico, foi lançado ainda em 1991. O single alcançou o número 40 na parada, mostrando que a popularidade do grupo estava aumentando. Em janeiro de 1992, um relançamento de You Love Us foi o primeiro single da banda a entrar no top 20 britânico, alcançando o número 16. Os dois próximos singles, Slash n’ Burn e Motorcycle Emptiness também ficaram no top 20 e a banda conseguiu o seu primeiro “top 10” com Theme from MAS*H (Suicide is Painless), em setembro daquele ano.

Apesar dessa profusão de singles, o lançamento mais importante de 1992 foi, sem dúvida, o primeiro LP da banda, Generation Terrorists (a saber, duplo no formato vinil, simples no formato CD). A capa do disco foi baseada numa tatuagem de Richey e seu encarte traz referências literárias diversas, com citações de Albert Camus, George Orwell, entre outros. Apesar da boa repercussão, a vendagem não foi de acordo com as expectativas grandiosas da banda — 300.000 cópias foram vendidas. Fora da Europa, mais decepções: a versão americana do disco foi modificada radicalmente pela gravadora, de modo a se tornar mais amigável para as rádios americanas e se enquadrar na grungemania que reinava na época. Esse fato irritou por completo os integrantes da banda, que também discordaram da forma como foi organizada a turnê pelos Estados Unidos, bem como a sua duração. Depois dos shows americanos, o Manics embarcou para mais uma temporada de shows no Reino Unido e na Irlanda, também cheia de incidentes, incluindo uma briga de comida durante um jantar black tie no Irish Music Awards (a premiação de música irlandesa). Em outro incidente digno de nota, ainda em 1992, durante o Reading Festival, Nicky quebrou o braço de um segurança e agrediu várias pessoas que viajavam com o R.E.M.

E, mesmo com a promessa de que a banda iria se separar após o primeiro disco, eles seguiram em frente, justificando com um “sabíamos da natureza hipócrita dessa declaração no momento em que a dissemos” repetido nas entrevistas. O último single de Generation Terrorists foi de Little Baby Nothing que continha um curioso dueto com Traci Lords, ex-atriz americana de filmes pornô.

Em junho de 1993, apenas cinco meses após o lançamento do último single do primeiro LP, foi lançado From Dispair To Where, rapidamente seguido pelo segundo disco, Gold Against The Soul, que trazia um sonoridade um pouco mais pop e menos crua em comparação ao álbum anterior. Um grande número de shows seguiram-se em julho, juntamente com mais um single, La Tristesse Durera (Scream To A Sigh), que acabou não atingindo o top 20 britânico mas acabou se tornando a música mais conhecida da banda no Brasil por vários anos, onde seu videoclip era exibido nos programas alternativos da MTV. No final de 1993, o Manics participou como banda de abertura da turnê do Bon Jovi e lançou mais um single, Roses in the Hospital.

Em janeiro de 1994 foi lançado o último single de Gold Against the Soul, chamado Life Becoming a Landslide, enquanto a banda continuava a fazer shows exaustivamente. Em maio, seguindo o embalo de lançamentos, a banda soltou Faster, o primeiro single do próximo LP. Entretanto, a mídia parecia mais interessada nos problemas pessoais de Richey. Em agosto daquele ano ele foi internado numa clínica psiquiátrica com diagnóstico de colapso nervoso. O guitarrista ficou internado durante alguns dias e aproveitou o tempo para contribuir para a arte do encarte do novo disco.

No dia 30 de agosto, com Richey ainda na clínica, foi lançado The Holy Bible, considerando por muitos como a obra-prima do grupo. O novo disco foi bastante elogiado pela crítica e continha elementos mais sombrios e depressivos do que os trabalhos anteriores, além das já tradicionais temáticas literária e política, em sua grande maioria escritas por Nicky e Richey. Mesmo com a boa repercussão e com os dois novos singles, Revol e She Is Suffering, as atenções continuavam voltadas para o membro internado da banda. Quando Richey deixou a clínica, o Manics pôde finalmente excursionar para divulgar The Holy Bible, em uma turnê ao lado do Suede e do Therapy? que rodou toda a Europa, finalizando em grandes shows no Astoria, em Londres. Durante a última noite no Astoria, a banda destruiu 10.000 libras em equipamentos. Nicky declarou após o show: “Nós nunca mais seremos tão bons de novo”.

Em janeiro de 1995, a banda começou a ensaiar novas músicas. Existiam negociações para escrever a música-título do filme Judge Dredd, com Sylvester Stallone, ao mesmo tempo em que foi lançado o single de Yes, também tirado de The Holy Bible. No dia 23, Richey foi entrevistado para uma revista japonesa — seria a sua última entrevista. O momento era bom, todos estavam prevendo que o Manics finalmente iria fazer sucesso no importante mercado americano — o pensamento geral era de que o novo estilo de The Holy Bible iria agradar em cheio ao público dos EUA. James e Richey tinham marcado uma viagem promocional para os EUA no dia 1º de fevereiro, com Nicky e Sean juntando-se a eles uma semana depois. No dia 31 de janeiro, James e Richey voltaram ao hotel Embassy, em Londres, e combinaram de se encontrar no dia seguinte, para seguirem viagem. James nunca mais veria Richey de novo.

A banda no início não deu importância ao sumiço de Richey, já que ele já tinha desaparecido por alguns dias em outras ocasiões. James foi aos Estados Unidos sozinho, sem saber o que tinha acontecido. Mas, aos poucos, eles foram ficando cada vez mais preocupados, já que Richey não retornava e não se tinham notícias dele. Ele foi declarado desaparecido e a polícia se envolveu no caso. Os pais de Richey foram ao seu apartamento no hotel, onde encontraram seus cartões de crédito e passaporte. Mais tarde foram descobertas retiradas de 200 libras por dia, durante dez dias. Seu carro também foi encontrado dias depois, sem bateria, no interior da Inglaterra, próximo de um penhasco, um lugar onde já aconteceram vários suicídios. No entanto, o corpo de Richey nunca foi encontrado e o caso nunca solucionado. Somente em novembro de 2008 a família de Richey considerou-o oficialmente morto.

Os três membros restantes do Manic Street Preachers passaram por um período doloroso e confuso. Sem saber o que aconteceu ao amigo e continuamente sendo questionados pela mídia sobre seu futuro, era preciso que eles tomassem uma decisão. Eles acabaram decidindo continuar como um trio, mas apenas se isto fosse permitido pelos pais de Richey, que apoiaram a decisão.

A banda voltou à ativa em dezembro de 1995, abrindo um show para o Stone Roses, no estádio de Wembley, e logo em seguida iniciaram os trabalhos para um novo disco, que foi rapidamente gravado. No dia 15 de abril de 1996 foi lançado o hit A Design for Life. O single entrou direto no segundo lugar da parada britânica, mostrando que eles estavam ainda mais populares do que antes. A Design for Life até hoje é o single mais vendido da carreira do Manics.

O álbum Everything Must Go, lançado em maio de 1996, foi aclamado pela crítica e público, alcançando o número 2 da parada. Everything Must Go recebeu disco de platina duplo (2 milhões de cópias vendidas no Reino Unido) e gerou mais três grandes hits do top 10 britânico, Everything Must Go, Kevin Carter e Australia. O disco foi também o mais votado em diversas enquetes de melhores do ano em várias revistas e jornais de música.

O Manics viveu seu maior momento em fevereiro de 1997, quando recebeu os prêmios de melhor banda e melhor álbum no Brit Awards. Em maio daquele ano, a banda tocou para 15.000 pessoas em Manchester, até então seu maior público. Em seguida, nova participação no Reading Festival, onde estrearam uma nova música, Ready for Drowning. Depois disso, a banda passou 18 meses fora dos holofotes, escrevendo e gravando músicas para um novo álbum, que se tornou o disco mais esperado do ano de 1998 na Inglaterra.

Em agosto de 1998 o single If You Tolerate This Your Children Will Be Next atingiu o número 1 na parada. O álbum This Is My Truth Tell Me Yours foi lançado em setembro e também chegou fácil ao número 1 em sua categoria. No final de novembro, depois de alguns pequenos shows, foi lançado um novo single, chamado The Everlasting. Começava também a maior turnê da carreira da banda: pela primeira vez o grupo tocava em grandes arenas, sempre lotadas, e novas datas tiveram que ser marcadas devido à grande demanda por ingressos.

Em fevereiro de 1999, o Manic Street Preachers ganhou o prêmio de melhor banda e melhor álbum no Brit Awards, exatamente os mesmos dois prêmios recebidos em 1997. Em março saiu mais um single de sucesso, You Stole the Sun From My Heart. O quarto e último single saiu em julho, Tsunami, no mesmo mês de um grande show no festival Glastonbury. No mesmo mês, outro show memorável em outro tradicional festival europeu, o T in the Park. A banda estraçalhou seu equipamento pela primeira vez desde o show do Astoria em 1994 e tocou um setlist dominado por várias músicas antigas, tiradas especialmente do álbum The Holy Bible. Muitos imaginaram estar presenciando o show de despedida do Manics.

Mas não foi. Após o show, a banda anunciou o lançamento de um novo single, Masses Against The Classes, música que não foi incluída em nenhum álbum. A última apresentação ao vivo do ano foi no festival V99, onde Masses Against The Classes foi apresentada ao público ao vivo pela primeira vez e não decepcionou. A banda incluiu mais material antigo naquele show, músicas como Faster, Of Walking Abortion e La Tristesse Durera.

A banda passou a maior parte de 2000 preparando novas músicas para o próximo disco, que acabou sendo lançado somente em 2001. Know Your Enemy é provavelmente o disco mais variado do Manics até então, englobando vários estilos e resgatando alguns elementos do início da carreira do grupo, como a temática política. A música Baby Elian trata do episódio do menino cubano que foi levado aos Estados Unidos contra a vontade do pai. Inclusive, a turnê de Know Your Enemy teve uma parada histórica em Cuba, onde a banda foi recebida calorosamente. O disco repetiu o sucesso dos anteriores, com mais dois singles de sucesso, So Why So Sad e Find That Soul e mais uma vez a banda foi a escolhida em várias premiações de final de ano no Reino Unido.

Depois disso, uma nova pausa, durante a qual surgiram duas coletâneas. A primeira delas, Forever Delayed, de 2002, traz os maiores sucessos da banda. Forever Delayed teve ainda uma edição limitada com um disco bônus de remixes. Em 2003 foi a vez de Lipstick Traces (A Secret History of Manic Street Preachers), dessa vez trazendo raridades, B-sides e covers, que vão de Chuck Berry a Primal Scream, passando por Beatles, Nirvana, Clash e Happy Mondays.

O lançamento das coletâneas contribuiu para ressuscitar os boatos sobre o fim do Manics, mas em outubro de 2003 a banda viajou para Nova York para as gravações de um novo álbum. O sucessor de Know Your Enemy saiu no fim de 2004 com o título Lifeblood. Esse disco segue a mesma linha do anterior, repetindo a boa aceitação perante público e crítica. Em sua turnê de divulgação, a banda voltou a utilizar um segundo guitarrista no palco, coisa que não acontecia desde o último show com Richey. Na época, o papel ficou com Guy Massey, engenheiro de som da banda, que não chegou a ser efetivado como membro, e não se apresentava no lugar de Richey — Guy ficava mais atrás, mais como músico de apoio, enquanto o espaço de Richey permanece vazio desde 1995. Ainda em 2004, foi lançada uma edição especial de aniversário do álbum The Holy Bible. O disco foi remasterizado e trazia como bônus um DVD contendo vídeos da banda em ação.

Em 2005, para marcar uma nova despedida temporária, a banda fez uma série de shows, nos quais distribuiu cópias de um EP chamado God Save the Manics, que seria posteriormente disponibilizado para download gratuito. Durante o novo período de hibernação do Manics, Bradfield e Wire lançaram seus primeiros discos solos.

A volta do Manics aconteceu em 2007, com o lançamento do álbum Send Away The Tigers. Entre os singles do disco, destaca-se Your Love Alone Is Not Enough, que tem a participação de Nina Persson, do Cardigans. O disco foi amplamente aclamado por público e crítica, e não é raro encontrá-lo como o preferido de alguns fãs. Na turnê de divulgação, o Manics deu preferência a shows menores, em detrimento aos grandes estádios e arenas de outrora — o objetivo era reestabelecer definitivamente o contato mais íntimo com a legião de fãs fiéis, com os quais o Manics conta desde sua fundação, duas décadas atrás.

No ano seguinte, a banda foi agraciada pela NME com o God Like Geniuses Award, em uma premiação ocorrida em Londres. Entre os nomes notórios que já receberam este prêmio estão o Clash e o Primal Scream.

Em maio de 2009 foi lançado um novo LP do Manics, chamado Journal for Plague Lovers, gravado a partir de letras deixadas inacabadas por Richey Edwards e produzido por Steve Albini. O disco teve novamente ótima recepção por parte da crítica e dos fãs. Durante sua turnê de promoção, Nicky Wire revelou que a banda já está trabalhando em um novo disco, a ser lançado em 2010.

Última atualização

20/11/2009

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