Liars

Biografia

Uma das características do início dessa primeira década do século XXI foi o surgimento de vários focos de música segmentada, ao contrário de cenas maiores e prolongadas como o grunge nos anos 90. A mídia tentou, nessa mudança de velocidade com a qual as coisas passaram a acontecer, organizar as coisas dentro dos paradigmas existentes até então, sendo em poucos anos desafiada a encontrar maneiras de conduzir uma explosão de música espalhada por milhões de computadores. Essa pequena segmentação em pouco tempo se mostrou momentânea, incapaz de definir um panorama onde artistas africanos coexistem nos MP3 players com medalhões como o Elvis Presley. A primeira fase do Liars foi encaixada nessa tentativa de adequação a uma tendência, mas as etapas seguintes trataram de revelar a verdadeira proposta dos nova-iorquinos: música para os mais excêntricos Winamps.

Angus Andrew, Aaron Hemphill, Pat Noecker e Ron Albertson formaram o Liars em 2000, em Williamsburg, região do Brooklyn que no início da década foi pinçada pela mídia como uma das que “estavam construindo o rock do novo milênio”. Havia ainda um quinto elemento, Julian Gross, que, inicialmente, não fazia parte da banda, mas costumava acompanhar os amigos em seus shows e ensaios. As apresentações incendiárias do quarteto eram reverenciadas como das mais imperdíveis, responsáveis pela contextualização do Liars no que se convencionou como “cena nova-iorquina” (que contou com Rapture, Strokes, Yeah Yeah Yeahs, Interpol e Walkmen, entre vários outros). Embora musicalmente divergentes entre si, a imprensa relacionou essas bandas como a primeira boa safra do que a década reservava para os ouvintes.

Mesmo respaldado por turnês com artistas nada convencionais como o Sonic Youth e o The Jon Spencer Blues Explosion, o primeiro disco do Liars, They Threw Us All In A Trench And Stuck A Monument On Top, lançado em 2001, acabou relacionado com o “efeito NY”, mais precisamente com o rótulo “disco-punk”. A atmosfera proveniente dessa rotulagem marcou essa primeira fase da banda, mesmo que o álbum apresentasse um formato mais avançado do que a simples ideia de conter músicas de abastecimento para pistas de dança descoladas. Apesar dos ritmos dançantes e roqueiros onipresentes, o disco mantinha uma linguagem suja e desvinculada da aura acessível equivocadamente atribuída a ele. Ao primeiro LP, seguiram-se três ruidosos EPs (um deles em conjunto com os vizinhos do Oneida). Em 2002, Angus e Aaron dispensaram Pat e Ron (que depois formariam o No Things), com o argumento de que a dupla remanescente era a verdadeira responsável pelas composições e que a ausência de Pat e Ron eliminava a necessidade de outros músicos compartilhando as decisões musicais da banda. No início de 2003 Angus mudou-se com sua namorada (Karen O., do Yeah Yeah Yeahs) para uma casa nas florestas de New Jersey, sendo acompanhado por Aaron e Julian quando Karen partiu em turnê com sua banda. Era chegado o momento de produção do segundo disco, e o Liars conseguiu convencer a Mute Records de que, ao invés de fazê-lo em frios e caros estúdios, a banda produziria melhor no porão da casa em que estava estabelecida. Com sinal verde da Mute, o trio — Julian assumira as baquetas após a saída de Albertson — assessorado por David Sitek, do TV On The Radio, decidiu eliminar os laços com os rótulos que lhe foram aplicados e buscou uma sonoridade desafiadora que revolucionaria a imagem da banda. Influenciados por artistas de eletrônica como o Matmos, passaram a flertar com o experimentalismo e as possibilidades oriundas da simbiose entre máquinas e ruídos analógicos, diferentemente do setup mais convencional utilizado no passado. Mas foi através de uma pesquisa equivocada na internet que Aaron deparou-se com o ingrediente principal do disco que estava sendo criado. Ao digitar equivocadamente a sentença “Brocken Witch”, deparou-se com uma série de páginas dedicadas ao Walpurgisnacht, uma tradicional celebração alemã para as bruxas da região de Brocken, folclore oriundo da idade média. O efeito das leituras chegou aos colegas, que se integraram na tarefa de transformar os contos seculares de caça às bruxas no tema do álbum, auxiliados por eventuais caminhadas à noite no meio da floresta. Essa influência se embrenhou no trabalho da banda de tal forma que as lendas malignas foram complementadas por uma sonorização sinistra e sombria, fazendo de They Were Wrong So We Drowned, o segundo LP do Liars, um dos discos mais criativos de 2004. Nesse sentido, a banda não só cumpriu a tarefa de apagar o passado, como acabou reservando sua poltrona no clube dos artistas que a partir dali passariam a responder pela vanguarda, o que lhes custou a antiga audiência movida por rótulos momentâneos. Suas performances no palco foram igualmente intrigantes, podendo ser conferidas até mesmo no Brasil durante o festival paulista Nokia Trends, em setembro de 2004.

O Liars promoveu seu segundo disco de forma tão massiva na Europa que Angus eventualmente transferiu-se para Berlim, atraído, entre outros motivos, pelo baixo custo de vida na cidade. Aaron e Julian o acompanharam gradualmente, a partir do momento em que o terceiro disco do trio começou a ser forjado em terras alemãs. O primeiro material produzido logo após They Were Wrong So We Drowned aproximou-se da sonoridade ambient, e embora tenha sido originalmente direcionado para um projeto visual a ser lançado na carona do segundo disco, a banda viu-se exaustivamente alternando produções musicais com gravações em vídeo. Quando percebeu, tinha levado a experiência para um outro patamar, onde todo o tempo estava disponível para a elaboração de um produto que apontasse para territórios artísticos inexplorados.

Enquanto a Mute pedia tempo para conceber o lançamento do trabalho, que exigia a inclusão de um DVD como complemento da experiência sonora, a banda seguiu polindo o novo material em exaustivas sessões de estúdio. A característica principal das novas músicas estava na sonoridade massiva das baterias, que atuavam quase como um quarto integrante da banda. Para chegar a essa resolução, foi localizado um antigo estúdio pertencente ao ex-governo comunista alemão, utilizado em gravações de programas de rádio. O complexo oferecia salas de gravação específicas para sonoridades peculiares, concebidas para a produção de radionovelas. A banda gravou seu disco nesse local a um custo irrisório e se esmerou em obter o máximo de possibilidades que o espaço lhe proporcionou. É esse exercício de experimentação de sons que delineia Drum’s Not Dead, o terceiro e mais audacioso trabalho dos Liars, lançado em 2006. Acompanhado de um DVD com três versões visuais do disco, o álbum deixa as bruxas de lado e aborda a polaridade entre os sentimentos que cercam o processo de criação da banda: a confiança e a dúvida (representados respectivamente por Drum e Mt. Heart Attack). Parece difícil que eles tenham conseguido conciliar tantas ideias arrojadas em um único pacote, mas o lançamento de Drum’s Not Dead foi acompanhado de muitos elogios por parte da imprensa virtual, fazendo dele um dos principais discos daquele ano.

Dessa vez, não passou muito tempo até o lançamento de um novo LP. O quarto trabalho do Liars foi autointitulado e lançado no ano seguinte ao lançamento de Drum’s Not Dead. Liars seguiu a tradição de seus dois antecessores e foi muito bem recebido pela crítica e pelos fãs. Antes do fim do ano, a banda disponibilizou para download gratuito um EP chamado Liars Session, que traz demos de quatro músicas que estão no tracklist de Liars. As turnês pela América do Norte e pela Europa se estenderam entre 2007 e 2008 e incluíram shows ao lado de No Age, Interpol e Radiohead.

No final de 2009 a banda anunciou que seu novo álbum se chamaria Sisterworld e publicou na internet um intrigante site para este seu próximo lançamento, onde é possível fazer o download de um não menos intrigante vídeo para a nova faixa Scissor. O lançamento de Sisterworld está agendado para 9 de março.

Última atualização

25/02/2010

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