Elliott Smith

Biografia

Apesar de ser muito pouco conhecido fora do circuito alternativo, Elliott Smith foi um dos melhores e mais importantes compositores da década de noventa. Com suas canções melancólicas e auto-destrutivas, Elliott conquistou um séqüito fiel e devotado de fãs, que buscam em sua música conforto e identificação. Sua morte, em outubro de 2003, só fez aumentar seus fãs.

Steven Paul Smith nasceu em 6 de agosto de 1969, ano do lançamento de um de seus discos favoritos, Abbey Road. Mas foi outro álbum dos Beatles que virou a sua cabeça: o White Album, que ouviu na casa de seu pai (seus pais eram divorciados). Elliott se apaixonou pelo disco, principalmente pela balada country Rocky Racoon, e decidiu que deveria se tornar baixista após ouvir Helter Skelter. Outras paixões de infância e adolescência do futuro músico foram o ícone country Hank Williams e os roqueiros Kiss, AC/DC, Clash e Elvis Costello.

Ainda durante a adolescência, Elliott abandonou a casa da mãe em Dallas por problemas com o padrasto, e foi morar com o pai em Portland. Na universidade, conheceu Neil Gust e logo a dupla começou o Heatmiser, banda meio esquizofrênica que ficava entre o grunge, então em voga, e o punk, e que contou também com o talentoso Sam Coomes, que depois veio a montar o Quasi com baterista Janet Weiss, do Sleater-Kinney. Apesar dos dois primeiros álbuns medianos (Dead Air, de 1993, e Cop And Speeder, de 1994), o Heatmiser conseguiu um contrato com a major Virgin, mas acabou antes de lançar um disco por lá. O bom Mic City Sons saiu após o fim do Heatmiser, pela independente Caroline.

Um dos motivos do fim do Heatmiser foi a carreira solo que Elliott iniciou paralelamente à banda. As disputas internas e brigas entre os integrantes forçou o fim traumático. Pouco antes, em 1994, saiu Roman Candle, o primeiro disco solo de Elliott Smith, registrado em um parco gravador de quatro canais numa garagem, em esquema completamente lo-fi. Nada além de Elliott, um violão e bateria em apenas duas canções (No Name #1 e Kiwi Maddog 20-20). As canções são amargas, raivosas, fazendo nascer o que muita gente chamou de folk punk, pelo estilo agressivo do compositor ao violão. Um ano depois a Kill Rock Star lançou o epônimo Elliott Smith, que segue a linha minimalista de Roman Candle, mas com algumas aberturas: Coming Up Roses traz um solo de guitarra elétrica e três canções contam com bateria. Isso sem nunca perder o estilo caseiro e lo-fi.

Elliott Smith é um dos discos mais sombrios e depressivos de que se tem notícia. As letras, pesadíssimas, falam basicamente de experiências com drogas (heroína em Needle In The Hay, anfetaminas de St. Ides Heaven, cocaína em The White Lady Loves You More), solidão (Clementine), separação (Good To Go) e auto-crítica (“I´m a junkyard full of false starts”, canta em Coming Up Roses). O disco permanece como o favorito de fãs mais radicais e puristas.

Em 1997, já livre das obrigações com o Heatmiser, Elliott lançou Either/Or, álbum que o revelou para um público um pouco maior. Talvez seja o seu melhor trabalho. Mesmo não possuindo exatamente uma super-produção, o disco é bem melhor gravado do que os anteriores. Aqui Elliott aperfeiçoa os arranjos e a sua marca registrada, os vocais dobrados, que dão um clima todo especial às canções. Quase todo o repertório virou hit entre os fãs, e Either/Or sempre foi o disco que forneceu mais canções aos shows. Destaque para desolação da maravilhosa Between The Bars, a irônica Angeles, Ballad Of Big Nothing (que lembra a saudosa banda dos anos setenta Big Star) e Say Yes, uma canção de amor definida por Elliott como “insanamente otimista”. Ainda neste ano, a primeira tentativa de suicídio: Smith se jogou de um penhasco, mas ficou preso em árvores no meio da queda. Ele definiu a situação como ridícula. Pouco depois foi internado numa clínica para tratar seu alcoolismo e o vício em drogas, fato freqüente em sua vida.

O público só começou a reparar no talento do cantor quando o cineasta Gus Van Sant pescou algumas composições de Either/Or para a trilha de “Gênio Indomável”, filme com Matt Damon e Ben Affleck. Além das músicas de Either/Or, Elliott cedeu a Van Sant a inédita Miss Misery, que aparece justamente no final do filme. A surpresa maior veio quando Elliott foi indicado ao Oscar pela canção, e mais, foi convidado a tocar na cerimônia da academia. Convidado não, intimado: Elliott não quis participar da festa, mas a Academia ameaçou convidar o brega Richard Marx para cantar Miss Misery em seu lugar, o que o fez mudar de idéia rapidinho. Nervoso durante a cerimônia, Smith ganhou um abraço e boa sorte de Celine Dion antes de subir no palco. A performance foi errática: Elliott se adiantou e cortou um trecho da canção. Sem contar que estava com o cabelo bagunçado e um terno branco sujo, que o deixava parecido com um mendigo. A estatueta ficou com Dion, pelo tema de “Titanic”.

Apesar de não ter abocanhado o prêmio, logo as grandes gravadoras correram atrás daquele rapaz talentoso. A Dreamworks, de Steven Spielberg, venceu a disputa. Em 1998, Elliott lançou XO (o nome vem da expressão internética “kisses and hugs”, isto é, abraços e beijos). O disco assustou os fãs pela produção sofisticada e pela utilização de instrumentos como piano, chamberlain (uma espécie de pianola), cordas e sax. Tem até uma canção à capella (I Didn´t Understand), que expõe a influência dos Beach Boys. Ecos sessentistas, aliás, estão presentes por todo o álbum, desde Baby Britain (que lembra Getting Better, dos Beatles) até Tomorrow Tomorrow (remete à Simon & Garfunkel). Apesar de algumas músicas serem mais alegres que de costume, Waltz #1, Oh Well Okay e Pitselah lembram que ali bate um coração triste. Waltz #2, que fala do relacionamento da mãe de Elliott e seu padrasto, foi lançada como primeiro single, e XO continua sendo o mais vendido de seus álbuns.

Muita gente não perdoou o “upgrade” de Elliott, afirmando que ele havia se vendido. O cantor rebateu dizendo que nunca teve a intenção de ser lo-fi; só o fazia por pura falta de oportunidade para trabalhar em melhores condições. Outra polêmica da época foi a não inclusão de Miss Misery em XO, algo que parecia natural. Elliott estava de saco cheio de só perguntarem da música em entrevistas e resolveu deixá-la de fora. A canção também permaneceu de fora de seus shows por vários anos. No fim das contas, seu maior hit não está em nenhum dos discos oficiais.

Na seqüência, Elliott fez uma turnê passando por toda a Europa e EUA, tendo o Quasi como banda de apoio. E logo mais lançou mais um disco. Se XO já havia assustado os fãs pela sofisticação, Figure 8, lançado em 2000, deve ter matado alguns do coração. O disco, gravado em Abbey Road, é ainda mais produzido. É também o menos inspirado de Elliott: Figure 8 é um pouco longo demais — com três ou quatro músicas a menos, seria perfeito. Mas ainda é cheio de grandes momentos, como Happiness, I Better Be Quiet, In The Lost And Found e a tocante Can’t Make A Sound, uma de suas cinco melhores composições.

Depois do lançamento do álbum, outra longa turnê, que acabou sendo problemática: o cantor entrou em depressão e teve que se internar mais uma vez. Os problemas pessoais acabaram servindo de inspiração para uma série de novas composições (King´s Crossing, Shooting Star, Get Lost, Fond Farewell, Memory Lane), que começaram a ser apresentadas em shows em 2001. No ano seguinte, Elliott entrou em estúdio para registrá-las, mas o disco, intitulado From A Basement On The Hill, foi recusado pela Dreamworks, que o considerou muito depressivo. Pouco depois, Elliott deixou a gravadora e começou a regravar o disco em seu estúdio particular. Seu último lançamento foi o single de Pretty (Ugly Before) (com A Distorted Reality Is Now A Necessity To Be Free no lado b) em agosto de 2003, pelo selo Suicide Squeeze, especializado em compactos de sete polegadas.

No fim do ano, o baque: Elliott Smith faleceu na noite de 21 de outubro de 2003, com violentos ferimentos no peito causado por uma faca. A hipótese mais lógica é a de suicídio, após uma discussão com a namorada Jennifer Chiba. Jennifer se trancou no banheiro, de onde ouviu um grito do namorado, a quem encontrou com a faca no peito. Há quem defenda a hipótese de que Chiba matou o cantor, graças a algumas evidências duvidosas, como o fato de Elliott ter recebido duas facadas no peito (teoricamente, ninguém consegue cravar uma faca duas vezes no próprio peito) e ter pequenos cortes nas mãos, o que poderia indicar resistência em uma briga. Por Chiba ter declarado estar no apartamento naquele momento, ela é a única suspeita possível. Mas é mais provável que tenha sido suicídio.

Em 19 de outubro de 2004, quase exatamente um ano após a morte do artista, foi lançado From a Basement on the Hill. O disco póstumo resultou da produção e mixagem de Rob Schnapf, que trabalhou com Elliott em Either/Or, e Joanna Bolme, ex-namorada do cantor. O disco não foi exatamente a obra-prima máxima da história, como era expectativa lançada por alguns boatos. Os fãs, no entanto, o aclamaram como a cereja no bolo de uma discografia que vinha em um crescendo, e que fecha perfeitamente o legado de Elliott Smith.

Novo lançamento póstumo ocorreu outubro em 2007, com a coletânea dupla New Moon. Lançado pela Kill Rock Stars, o álbum traz canções gravadas entre 1994 e 1997, período em que o selo lançava os trabalhos de Smith; versões iniciais de canções conhecidas e b-sides, além de, finalmente, Miss Misery. Também em 2007 foi lançado o livro “Elliott Smith”, de Autumn de Wilde, que traz fotografias e cópias de escritos de Smith. Autumn havia sido o responsável pela arte gráfica do disco Figure 8. O livro traz ainda um CD com cinco canções gravadas ao vivo em um show de Smith em Los Angeles.

Última atualização

26/11/2008

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