Breve história

Já não lembro dos detalhes, mas, basicamente, no fim do século passado — digamos, 1998 —, havia as listas de discussão da Whiplash. Lista de discussão: ferramenta maravilhosa da internet, anterior às redes sociais, não tão popular hoje em dia, mas ainda um pilar essencial da faceta útil e prazerosa da internet. A Whiplash era um site muito bacana, um site precursor, e com muita gente legal envolvida. As suas listas de discussão, divididas por tópicos, eram fantásticas — eu fazia parte de dezenas, um reflexo dos meus gostos amplos em matéria de música. Ótimas lembranças dos camaradas e das discussões nas listas sobre metal e rock progressivo. A lista de metal, em particular, era ótima: cheguei a comprar discos do Blind Guardian, influenciado pela paixão e pela fleuma dos amigos. Blind Guardian!

Mas não poderia faltar, obviamente, uma lista chamada “Grunge”, esse bicho que era então um recém-moribundo, mas que ainda exercia grande apelo e influência. Esta lista foi o ninho da Dying Days, cuja idéia inicial era reunir perfis dos amigos da lista, seus discos preferidos, coisas deste tipo. Seria uma espécie de complemento, e juntos — Dying Days e lista — teríamos uma espécie de rede social, antes do termo ser cunhado.

Eu e o Alexandre Luzardo adotamos a idéia, nos organizamos e assim materializou-se o site, em 1999, fruto de nossos parcos conhecimentos de HTML, hospedado em algum destes serviços gratuitos de hospedagem. Em termos de conteúdo, ele logo evoluiu para um site de discografias, resenhas, biografias, textos diversos sobre música — isto que ele é até hoje. Daí veio a lista de discussão própria, chats, depois o blog, encontros e grandes amizades.

Durante alguns anos, o movimento foi intenso, de conteúdo, de encontros, de mensagens, de idéias, e o site poderia até ter seguido por caminhos diferentes, mas o mantivemos do jeito que sempre preferimos: uma diversão entre amigos, um grande álbum de figurinhas colecionado em conjunto. Nunca houve a menor pretensão de crítica musical ou jornalismo cultural, muito menos aspirações a qualquer tipo de sucesso ou de grandes quantidades de acesso ou coisas do tipo — aliás, há meses eu não visito lá o Google Analytics para saber a quantas andam as estatítiscas, e nem tenho a menor curiosidade. Nunca houve dinheiro ou banners ou publicidade alguma envolvida — quero dizer, dinheiro há, o valor anual que pagamos de nossos bolsos pelo domínio e a hospedagem (que já não é mais gratuita, naturalmente), só isso. Todas as colaborações sempre foram na base da camaradagem, por parte dos que chegavam ao site por acaso e gostavam da idéia. Tudo na base do puro prazer de se escrever e publicar uma opinião ou relato, e reunir informações sobre este nosso hobby em comum, a música. No conceito, pouco mudou desde então — talvez somente o nosso critério com relação à uma mínima qualidade na escrita. Afinal, de textos toscos a internet já está irremediavelmente infestada e contaminada.

Ah, e claro: apesar do nome original do site, “Dying Days: The Grunge Years”, naturalmente o conteúdo já não se restringe mais às bandas de Seattle e adjacências. Aliás, essa foi uma pergunta que respondemos milhares de vezes: qual o critério para escolher as bandas que iam se relacionando ao site? O coração da Dying Days foram aquelas bandas-símbolos do rock alternativo nos anos 90/00 — Soundgarden, Nirvana, Screaming Trees, Pearl Jam, Afghan Whigs, Breeders, Sonic Youth, R.E.M., Cure, Lemonheads, Radiohead, Pixies, Fugazi, Jane’s Addiction, Smashing Pumpkins, Mad Season, Blur, Flaming Lips, Pavement, Alice in Chains, Wilco, o que é já um espectro bem razoável de sonoridades. Esse coração tem influência ainda hoje — influência de braços longos, mesclada aos nossos ecléticos gostos pessoais. É o máximo que eu sempre consegui responder, e nem nunca foi muita preocupação nossa. Sempre foi bem intuitivo.

Um marco dessa história que eu acho que vale a pena mencionar é a nova versão do site publicada em 2008. Até aquele momento, a estrutura do site havia sido basicamente a mesma, na base do HTML, com tudo publicado manualmente, página por página, codificado nas madrugadas e fins de semana com fones nos ouvidos e muita conversa no ICQ e e-mails. Mas posteriormente, em um trabalhinho de implementação que durou uns dois anos, sempre na base do tempo livre (o que, àquela altura, já correspondia a “quase nunca”), desenhamos e implantamos um novo site, todo organizado sob um banco de dados, com um sistema de publicação e várias outras técnicas que nos ajudam a gerenciar e publicar seu conteúdo. Conteúdo que, aliás, ainda está sendo migrado do site antigo, bastante lentamente.

Aliás, o motivo do ritmo desacelerado desta migração é o mesmo que nos leva ao também desacelerado ritmo atual de publicação de novo conteúdo: o grupo de amigos que se formou em torno do site e que era o principal responsável pelos textos e publicações, que tinha seus 20 anos e fazia faculdade e morava com os pais, hoje tem 30, trabalha e mora sozinho ou com suas esposas ou maridos, e tem um monte de contas para pagar. Todo mundo se fala ainda, se encontra vez ou outra, mas o tempo livre para escrever e publicar coisas é bem reduzido para a maioria.

Mas a Dying Days permanece. Permanece pois continua sendo essa brincadeira entre amigos, baseado muito mais na paixão pela descoberta musical, na mesma medida que cada um consegue dedicar seu tempo livre a isso, do que em qualquer compromisso de se escrever qualquer coisa e manter um site na internet. Sempre que alguém pode e publica algo, ótimo, quem acompanha será devidamente informado via RSS ou tweet. E se este ritmo não é aquele que gostaríamos, bem, quando estivermos nos aposentando, com a vida mais mansa, daqui uns 20 ou 30 anos, daí quem sabe o site volta a ter aquele movimento intenso dos seus saudosos anos inciais! Afinal, é certo que a Dying Days estará ainda on-line.

Fabricio C. Boppré, em setembro de 2010